Ensino da Bíblia

Silêncio Divino: Lamento e Permanência

Uma mãe senta-se ao lado de um leito de hospital e repete, em voz baixa, as palavras que saíram da boca do rei-poeta séculos antes: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Sl 22.1).

Há rostos que conhecemos, o órfão, o profeta, o fiel exilado, que carregam a mesma pergunta num suspiro que vira texto sagrado. Estas vozes não são um pedido elegante; são uma pele que toca a dureza do mundo e encontra silêncio.

Abrimos aqui a Escritura por essas fendas: o Salmo 22, o Salmo 88 e o primeiro discurso de Habacuque. Não para domar a pergunta, mas para aprender com as palavras de quem escreveu a própria dor em aliança com Deus.

Salmo 22, atribuído a Davi nos títulos canônicos, nasce no coração da experiência pessoal exposta à comunidade cultual. O salmo começa com um clamor absoluto (22.1), passa por imagens de humilhação pública e conclui, surpreendentemente, em ação de graças e vindicação (22.22-31).

Cultura e liturgia tensionam o privado e o público. O lamento torna-se canto no templo e a experiência individual é moldada para a memória coletiva.

Salmo 88, nos cabeçalhos identificado com Hemã, o ezraíta, situa-se igualmente no universo do culto, possivelmente entre os músicos do templo. Diferente do salmo 22, o 88 permanece em trevas; é um lamento contínuo (Sl 88.1-2; veja especialmente 88.14-18), sem o desfecho de louvor litúrgico.

Culturalmente, o salmo 88 expõe que nem todos os sofrimentos recebem resposta redentora imediata na esfera cultual. A Escritura retém essa escuridão como testemunho.

Habacuque 1 apresenta um profeta atuando num tempo de rupturas. A violência e a injustiça dominam Judá; o Império babilônico se eleva como instrumento inesperado. O livro inaugura com uma queixa direta: “Até quando, Senhor, clamarei, e tu não ouvirás?” (Hab 1.2).

A geografia é a terra de Judá; o cenário político anuncia juízo e o problema teológico é o silêncio aparente diante do mal.

Em cada texto a queixação é conversa com Deus, não apenas desabafo. O salmista de 22 abre um tribunal celestial: ele enuncia a experiência de abandono e, em seguida, invoca a lembrança da salvação passada e a esperança coletiva (Sl 22.22-24).

Habacuque leva a queixa ao nível do profeta: não aceita passivamente a violência; questiona a justiça divina e solicita resposta (Hab 1.2-4).

O verbo usado em Salmo 22.1עָזַבְתָּנִי, “tu me desamparaste” — vem da raiz עזב (ʿ-z-b). Seu campo semântico varia: pode significar deixar por opção, abandonar ou afastar-se.

Em Gênesis 2.24 a mesma raiz descreve o deixar pai e mãe, um afastamento humano com propósito. No salmo, porém, a palavra denuncia uma sensação de separação relacional entre o crente e o Senhor.

Linguisticamente, עזב pode expressar uma experiência concreta de ausência sem, necessariamente, negar a fidelidade de Deus. Nas Escrituras, o termo capta tanto ação quanto percepção.

Salmo 22 descreve uma trajetória: do abandono à proclamação pública de louvor (22.22-31). O texto transforma o lamento em memória salvadora; a comunidade canta a intervenção divina.

Salmo 88, ao contrário, interrompe essa trajetória esperada. Não há oração transformada em hino final; a Escritura conserva o silêncio como testemunha da dor persistente (Sl 88.1, 88.14-18).

Habacuque contém a tensão entre pergunta e confiança. O profeta recebe de Deus resposta que o convida à espera paciente e à fé: “o justo, pela sua fé, viverá” (Hab 2.4). No fim do livro, Habacuque compõe um cântico que, mesmo reconhecendo a perda (3.17), afirma confiança em Deus (3.18-19).

A Escritura não suprime a pergunta; dá-lhe forma e lugar. Os salmos e o profeta autorizam a honestidade diante de Deus: lamentar é dialogar com a aliança.

A resposta bíblica nem sempre é imediata. Ela inclui trazer o lamento à comunidade cultual, recordar os atos passados de Deus (Sl 22.24) e manter a postura profética de Habacuque: questionar, ouvir a palavra e manter fé (Hab 2.4; Hab 3.17-19).

Para estudo prático das palavras bíblicas e aprofundamento lexical, recomendo ferramentas que transformam buscas em conteúdo devocional e exegético, como https://ensinodabiblia.com.br/pesquisa-de-termos-biblicos-transforme-buscas-em-conteudo/ e os recursos disponíveis em https://ensinodabiblia.com.br/, que auxiliam a guiar leituras temáticas.

Representação bíblica
“Representação bíblica”

A fé no silêncio exige práticas concretas que firmem a alma na Escritura e na comunidade. Aqui estão passos bíblicos e acionáveis para quem enfrenta o sentimento de abandono.

  • Leve o lamento a Deus. Use as palavras dos salmos como modelo: abra o peito com fala honesta diante do Senhor, pronunciando frases como em Sl 22.1 ou Sl 88.1. A Escritura nos autoriza a ser crua em oração; isso é teologia em prática.
  • Insira o lamento na comunidade cultual. Traga sua queixa à igreja local, a um grupo de oração ou ao culto de adoração. Os salmos eram cantados em assembleia; levar a dor ao culto conecta a experiência pessoal à memória coletiva de redenção.
  • Memorize e recite relatos da fidelidade divina. Recordar feitos passados de Deus ressignifica o presente (ver Sl 22.24). Faça uma lista bíblica de promessas e profecias cumpridas e a recite nos dias de aridez espiritual.
  • Pratique a espera ativa. Habacuque ensina que a fé persevera: “o justo, pela sua fé, viverá” (Hab 2.4). Aguardar não é passividade; é continuar em fidelidade ao que Deus já disse, mesmo quando a visibilidade da resposta falta.
  • Use ritos de lamentação. Jejum, vigílias e confissão litúrgica dão forma ao sofrimento. A prática ritual ajuda a articular o lamento sem precipitá-lo para soluções humanas imediatas.
  • Procure aconselhamento bíblico. Busque líderes formados em Escritura para orientar oração, disciplina espiritual e ação pastoral. O acompanhamento pastoral previne que o silêncio se transforme em desespero solitário.
  • Sirva enquanto espera. Habacuque e os salmos mostram que a confiança produz obras. Engaje-se em serviço concreto; cuidar do outro é caminho bíblico para permanecer em fé.

Para estudo prático das palavras bíblicas e aprofundamento lexical recomendo o uso de ferramentas e artigos que transformam buscas em conteúdo devocional e exegético, como https://ensinodabiblia.com.br/pesquisa-de-termos-biblicos-transforme-buscas-em-conteudo/ e outros recursos do site para guiar leituras temáticas. Em 2025, integrar estudo eletrônico com leitura tradicional fortalece tanto a compreensão quanto a resistência espiritual.

O silêncio de Deus não anula a aliança; ele a testifica. A Escritura preserva vozes que clamam, por vezes sem resposta imediata, mas sempre dentro de um diálogo relacional com o Senhor. Salmo 22 termina em vindicação pública; Salmo 88 permanece em trevas; Habacuque se move da queixa para uma fé que persiste.

Esses caminhos bíblicos nos ensinam que a resposta de Deus pode vir em formas diversas, inclusive na formação de um caráter que espera.

Convido a uma prática imediata: sente-se por cinco minutos e recite, em voz baixa, o início do salmo que mais ressoa com sua dor. Permita que as palavras formem sua oração. Se houver necessidade, peça à comunidade que ore com você e anote promessas bíblicas para recitar nos dias seguintes.

O chamado final é à humildade teológica: aceitar que nem todo silêncio é ausência definitiva. Arrependa-se do cinismo que reduz a transcendência e aprofunde a confiança que Habacuque canta. Termine este momento com uma oração simples: Senhor, ouve meu lamento; ensina-me a esperar em tua fidelidade.

Se desejar, encaminhe-se a um líder espiritual para acompanhamento contínuo e arrependimento prático quando necessário.

Leia também: https://ensinodabiblia.com.br/pesquisa-de-termos-biblicos-transforme-buscas-em-conteudo/ e https://ensinodabiblia.com.br/ para guias de estudo, ferramentas lexicais e práticas devocionais que ampliam a leitura dos textos lamentatórios.

  • D. A. Carson, Comentário Vida Nova (Coleção de Comentários Bíblicos) — estudos exegéticos e teológicos que ajudam a situar os salmos no cânon e na teologia prática.
  • Matthew Henry, Comentário Completo sobre a Bíblia — leitura devocional e pastoral clássica, útil para ver como gerações anteriores articularam o lamento e a esperança.
  • Obras selecionadas da Editora Paulus — edições críticas e materiais pastorais sobre os Salmos e os Profetas Menores.

Referências bíblicas centrais citadas: Salmo 22, Salmo 88, Habacuque 1-3. Para estudo lexical da raiz hebraica עזב veja materiais especializados indicados nas fontes acima.


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