Ensino da Bíblia

Quando o Amanhã Assusta: Promessa e Cuidado Bíblico

Havia um homem que, ao ouvir a promessa, deixou uma cidade e seguiu uma estrada sem mapa. Ele não sabia onde iria dormir naquela noite, nem como sustentaria sua família, mas recebeu a palavra de alguém que falava com autoridade. Essa palavra mudou sua rota, remodelou sua confiança e abriu espaço para uma promessa maior que ele ainda não via.

Essa cena não é ficção; é o começo da narrativa de Abraão em Gênesis e o pulso de muitos salmos e cartas apostólicas. Neste estudo, iremos abrir a Escritura para que a Palavra fale ao coração inquieto, oferecendo direção, imagens e termos que tratam precisamente da ansiedade sobre o amanhã.

O caminho que vamos trilhar une a marcha de um patriarca, o lamento e a confiança do salmista, a exortação prática de Paulo e a parábola direta de Jesus. Cada passo volta-se para uma única pergunta: como a palavra de Deus responde quando o porvir nos pesa?

Gênesis 12 apresenta um chamado pronunciado a um homem nômade no contexto do Antigo Oriente Próximo. Abraão, então chamado Abrão, viveu em um mundo de tribos, caravanas e alianças familiares, onde a terra era disputa de cidades-estado e as promessas divinas vinham na forma de pactos.

O mandato lekh-lekha (לֶךְ־לְךָ) — vai-te para ti mesmo — aparece em um ambiente em que deixar a terra natal significava perder redes sociais, proteção familiar e segurança material (Gênesis 12:1-4).

Os Salmos, em especial Salmo 23 e Salmo 42, nascem da vida israelita marcada por pastoreio, cultos e exílios. Salmo 23 usa a imagem pastoral, conhecida e cotidiana, para falar da provisão e da presença de YHWH como pastor que conduz à restauração (Salmo 23:1-4).

Salmo 42 registra a voz do sufoco interior: o salmista pergunta à própria alma sobre o abatimento e, ainda assim, retorna sua esperança ao Senhor (Salmo 42:5,11).

Filipenses 4 foi escrita por Paulo a uma igreja que conhecia oposição e miséria material; enviada de uma cadeia romana, a carta combina gratidão e instruções práticas. Sua igreja precisava de calma e de oração como antídotos para a ansiedade (Filipenses 4:4-7).

Em Mateus 6, Jesus, em seu Sermão da Montanha, repreende a ansiedade pelas necessidades diárias e propõe a busca do reino como prioridade, confiando a provisão do Pai (Mateus 6:25-34). Esses textos ocupam cenários distintos — patriarca, salmista, apóstolo e Rabbi —, mas falam a um mesmo coração inquieto.

O chamado a Abraão não é apenas geográfico; é um convite existencial para viver a promessa antes de sua plenitude. Gênesis registra repetidas reafirmações da promessa (Gênesis 12; 15; 17), e cada suspensão da segurança humana torna mais explícita a dependência na fidelidade divina.

A expressão lekh-lekha (לֶךְ־לְךָ) preserva um comando que desloca o homem de seu conhecido para o projeto de Deus: é um movimento de fé que caminha, uma obediência que responde à promessa antes da visibilidade do cumprimento.

No Salmo 23, a declaração YHWH ro’i (o Senhor é meu pastor) funda uma confiança que atravessa vales de sombra. A linguagem pastoral não apaga a realidade do perigo; ela afirma que a mesma presença que guia e alimenta também passa conosco na adversidade.

Em Salmo 42, o salmista, que se vê sedento e angustiado, volta seu discurso para a esperança: “por que te abates, ó minha alma? Espera em Deus” (Salmo 42:5,11). A terapia bíblica contra o medo do amanhã começa por reinstituir a memória da fidelidade divina.

A palavra grega usada por Jesus e por Paulo para traduzir ansiedade é μεριμνάω (merimnaō). Seu núcleo semântico remete à divisão da mente, a uma preocupação que distrai e parte o ânimo.

Em Mateus 6:25 e em Filipenses 4:6-7, μεριμνάω aparece tanto como diagnóstico quanto como sintoma espiritual: aquilo que disputa a primazia do coração e rouba a paz.

Em Mateus, Jesus contrasta μεριμνάω com a providência do Pai e com a firme prioridade do reino. Em Filipenses, Paulo contrapõe μεριμνάω ao exercício da oração com ações de graças; a consequência prometida é uma paz que guarda o coração e a mente (Filipenses 4:6-7).

Linguisticamente, μεριμνάω descreve uma mente fragmentada entre múltiplas preocupações; teologicamente, aponta para uma idolatria do controle humano quando a confiança deveria repousar em Deus.

Do chamado a Abraão aprendemos a coragem de caminhar à vista da promessa. Dos Salmos recebemos a honestidade do lamento que retorna à esperança em YHWH. De Paulo aprendemos a substituição prática: oração no lugar da inquietação, ação de graças no lugar da preocupação.

De Jesus, somos ensinados a ajustar a escala de valores — buscar primeiro o reino — e a confiar que o Pai conhece e provê. A Palavra atua em três níveis: reorienta a memória (quem é Deus), reconstrói a prática (oração e gratidão) e reforma a imaginação (imagens pastorais e promessa caminhada).

Representação bíblica
“Representação bíblica”

A Palavra não é apenas teoria; ela direciona passos concretos quando o futuro pesa. Comece reorientando a memória: registre diariamente atos de fidelidade divina e versículos que confrontem o medo. Um diário de graças ajuda a contrapor a mente fragmentada que a palavra grega μεριμνάω descreve.

Substitua a ansiedade por prática espiritual fiel. Faça da oração o hábito imediato diante do medo. Paulo instrui: Filipenses 4:6-7 — não como abstrato, mas como disciplina. Ore com pedidos claros, agradeça por provisões já experimentadas e memorize promessas específicas de Deus.

Recalibre prioridades. Viva segundo Mateus 6:33: buscar primeiro o reino não é passividade, é ordenar a vontade e os dias segundo a soberania de Deus. Isso transforma decisões práticas: finanças, trabalho e afeto deixam de ser centros de idolatria.

Fortaleça-se em comunidade. Partilhe temores com irmãos e procure aconselhamento bíblico. A jornada de fé raramente é solitária; o corpo exerce cuidado prático e responsabilização mútua. Para entender como Paulo orienta o discípulo na prática comunitária, veja https://ensinodabiblia.com.br/cartas-de-paulo-guia-pratico-para-discipulado/.

Adote meios espirituais concretos

  • Memorize promessas relevantes a situações presentes; repita-as quando a mente se fragmentar.
  • Estabeleça horários fixos de oração e leitura bíblica, mesmo que breves; a constância reforma a imaginação.
  • Pratique a gratidão ativa: escreva três razões pelas quais Deus foi fiel antes de dormir.
  • Procure aconselhamento pastoral ou bíblico quando a ansiedade paralisa decisões importantes.

A Escritura nos convida a caminhar com promessas e a descansar em presença. Abraão viveu entre promessas não realizadas e obedeceu; o salmista viu perigo e cantou confiança; Paulo trocou preocupação por oração; Jesus realinhou o olhar para o Pai. Esses são caminhos práticos para o coração atribulado.

Convido você agora a uma oração breve e concreta: reconheça a tendência de dividir a mente, confesse a busca de segurança em coisas transitórias, e peça a Deus a graça de caminhar segundo a promessa. Arrependa-se de confiar em suas próprias previsões e prossiga em obediência fiel.

Que a paz prometida em Filipenses 4:7 guarde seu coração e sua mente. Que o Senhor, que é o nosso Pastor em Salmo 23:1, caminhe com você pelos vales. Levante-se hoje com um pequeno ato de fé: uma oração, uma palavra de gratidão, um passo em direção ao chamado que Deus lhe deu.

Links internos recomendados

Fontes teológicas e comentários consultados

  • Carson, D. A. Comentário do Novo Testamento. Editora Vida Nova. (consulta de notas e comentários sobre Mateus e Filipenses).
  • Henry, Matthew. Comentário Completo sobre a Bíblia. Edições antigas e modernas (análises devocionais e exegéticas dos Salmos e Gênesis).
  • Obras e comentários da Editora Paulus sobre Gênesis e os Salmos (recursos históricos e teológicos para o Antigo Testamento).


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