Quando Deus Parece Ausente
Uma mulher se ajoelha à beira de um leito vazio e sussurra as palavras que lemos nos Salmos: até quando, Senhor? Essa cena repete-se ao longo da história do povo de Deus. Davi, Heman e o salmista anônimo de angústia escreveram no limiar entre o clamor e o silêncio divino. Paulo, preso entre naufrágios e promessas, conhece esse sentir de abandono e o transforma em testemunho.
Começamos por ouvir essas vozes como quem recebe cartas de amigos no deserto. Não buscamos dizer por que Deus está ausente. Antes, queremos aprender a responder com as mesmas palavras que a Escritura oferece: reclamação honesta, memória da fidelidade e confiança que resiste ao escuro.
Os Salmos de lamento formam um gênero fixo na liturgia israelita. Surgem em contextos variados: perseguição pessoal, calamidade nacional, exílio ou doença. Salmo 13 atribui-se a Davi e traduz o drama íntimo do rei perseguido e angustiado. Salmo 22 também se liga à tradição davídica; suas imagens de abandono e de provocação pública circundam uma figura que clama do meio da angústia. Salmo 88, atribuído a Heman o Ezrahita, distingue-se por não apresentar uma doxologia final, terminando em sombra e pranto contínuo.
Geograficamente, esses lamentos nascem no coração do culto israelita. A presença de Deus era compreendida como localizada: o Templo, o Santo dos Santos e a tradição dos profetas tornavam a face de Javé um eixo teológico. Quando a face é escondida, o indivíduo e a comunidade sentem-se deslocados desse eixo.
Culturalmente, o lamento é palavra pública e privada: cantares que se entoam na assembleia e orações que se articulam na solidão. No Novo Testamento, 2 Coríntios 1:3-11 situa o sofrer no itinerário missionário de Paulo. Escrevendo desde o convívio com perigo, Paulo descreve a angústia que lhes tirou a esperança da vida, para que não confiariam em si mesmos mas em Deus.
No clamor de Salmo 22:1 encontramos a expressão hebraica עֲזָבְתָנִי (azavtani), traduzida por “me abandonaste” ou “me desamparaste”. A raiz עָזַב (azav) entrelaça sentidos de deixar, desamparar, retirar-se. Em várias passagens do Antigo Testamento essa raiz descreve tanto um abandono físico como uma quebra de aliança.
Quando o salmista diz עֲזָבְתָנִי, não descreve apenas uma ausência sensorial de Deus; denuncia a sensação de ruptura com a presença que deveria sustentar a aliança. A leitura léxica revela que o lamento é ao mesmo tempo queixa e denúncia teológica.
Os salmos aqui estudados seguem a matriz de muitas lamentações: invocação, queixa, petição e, frequentemente, afirmação de confiança ou louvor. Salmo 13 exemplifica esse movimento. Nos versos iniciais o salmista pergunta por quanto tempo será esquecido e por que a face de Deus está escondida. Nos versos finais há uma virada: “Mas eu confio no teu amor” e “exultarei na tua salvação” (Salmo 13:5-6).
Contrastando, Salmo 88 recusa a consolidação final. As imagens de trevas, doença e sepultura (Salmo 88:3-6, 14-15) permanecem sem resolução. A presença desse salmo no cânon mostra que a tradição sacra acolhe o lamento que ecoa sem resposta confortadora; a Escritura não impõe solução emocional imediata.
Em 2 Coríntios 1:3 Paulo abre com uma doxologia: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda consolação”. Em seguida afirma que Deus nos consola em toda tribulação, para que possamos consolar outros com a mesma consolação (2 Coríntios 1:3-4).
Paulo não nega a intensidade do perigo. Em 2 Coríntios 1:8-9 descreve um desespero de vida, recurso humano esgotado, para que a salvação venha somente de Deus. A Escritura move o queixoso a reconhecer Deus como fonte e agência da consolação comunitária.
Da leitura conjunta brotam respostas bíblicas concretas. O verbo doer se transforma em palavra dirigida a Deus, conforme o modelo dos salmos (Salmo 13:1-2 e Salmo 22:1). A memória das misericórdias precede a decisão de confiar, como em Salmo 13:5. A experiência da consolação é tanto recebida quanto compartilhada, conforme 2 Coríntios 1:4.
Esses sons bíblicos não dissolvem o mistério do silêncio divino. Oferecem, porém, um caminho formado por voz, memória e comunhão, sustentado pela promessa de que Deus é Pai das misericórdias e fonte de consolação real. Para aprofundar termos e imagens bíblicas e evitar leituras superficiais, utilize recursos de pesquisa de termos como esta ferramenta e visite nosso portal para materiais de formação.

A Escritura não deixa o queixoso em abstrações. Ela ensina passos concretos que podemos aplicar na vida cristã em 2025, todos ancorados em textos sagrados.
- Nomear o lamento: fale com Deus usando as próprias palavras dos salmos. Diga, por exemplo, “até quando?” conforme o ritmo de Salmo 13 e o clamor de Salmo 22. A oração que nomeia a dor transforma silêncio em diálogo (veja Salmo 22:1).
- Recordar a fidelidade: cultive a memória das misericórdias anteriores. O salmista vira do pranto à confiança lembrando feitos passados (cf. Salmo 13:5). Anote ocasiões particulares de graça e recite-as em oração.
- Buscar a consolação em comunidade: peça e ofereça consolo segundo o modelo paulino. Deus é chamado de “Pai das misericórdias e Deus de toda consolação” e consola-nos para que consolemos outros (cf. 2 Coríntios 1:3-4). Participe de mesas de oração, grupos bíblicos e acompanhamento pastoral, mesmo por plataformas digitais, enquanto preserva a comunhão verdadeira.
- Permanecer na Palavra e nos sinais: mantenha leitura orante das Escrituras e participação nos sacramentos como lugar de encontro com a face oculta de Deus. A liturgia e a leitura dos salmos dão voz a quem sofre (cf. Salmo 88 como exemplo de lamento litúrgico).
- Depender e testemunhar: quando Paulo descreve desespero de vida para que não confiem em si mesmos, ele aponta à dependência plena em Deus (cf. 2 Coríntios 1:8-9). Transforme a experiência de fragilidade em testemunho que edifica outros em palavras simples e em serviço prático.
- Práticas devocionais concretas: estabeleça um roteiro diário breve: 1) confessar o lamento em voz alta; 2) ler um salmo de lamento e um salmo de louvor; 3) escrever dois registros de misericórdia; 4) ligar ou encontrar um irmão para oração. Recursos de estudo como https://ensinodabiblia.com.br/pesquisa-de-termos-biblicos-transforme-buscas-em-conteudo/ ajudam a aprofundar termos bíblicos e a evitar interpretações superficiais.
Cada passo move a voz do indivíduo em direção à memória e à comunhão. Não são técnicas magistrais; são disciplinas bíblicas que permitem que a fé resista ao deserto. Para estudar termos e imagens bíblicas que surgem nesse processo, veja também https://ensinodabiblia.com.br/ para ferramentas de pesquisa e formação teológica.
O silêncio de Deus permanece, por vezes, inexplicável. A Escritura não promete uma saída imediata do vale. Oferece, porém, uma via firme: falar a Deus honestamente, lembrar suas misericórdias, permanecer com o povo de Deus e ser canal de consolação.
Permita que a liturgia dos salmos molde suas palavras. Permita que a teologia de Paulo molde suas relações. Ao final, o que sustenta é a certeza de que Deus é o “Pai das misericórdias” e que a consolação recebida chama a consolar (cf. 2 Coríntios 1:3-4).
Oração breve: Senhor, ouve o meu clamor; conserva em mim a memória da tua fidelidade; usa meus dias de fraqueza para que outros encontrem consolo. Amém.
Arrependimento e ação teológica: examine motivos de confiança vazia, arrependa-se da autoconfiança que exclui o pedido de ajuda, e comprometa-se com práticas bíblicas de comunhão e leitura das Escrituras. A fé que permanece é forjada no diálogo honesto com Deus e na caridade prática para com os irmãos.
Recursos internos úteis:
- Pesquisa de termos bíblicos: https://ensinodabiblia.com.br/pesquisa-de-termos-biblicos-transforme-buscas-em-conteudo/
- Ferramentas de formação e artigos: https://ensinodabiblia.com.br/
Obras teológicas recomendadas para estudo aprofundado:
- D. A. Carson, Comentário Vida Nova sobre os Salmos, volume que analisa forma e teologia dos salmos de lamento, oferecendo leitura exegética e pastoral.
- Matthew Henry, Exposição completa sobre os Salmos, atenção prática ao uso devocional do lamento e da consolação.
- Obras publicadas pela Editora Paulus sobre a tradição salmódica e culto bíblico, úteis para compreensão litúrgica do lamento.
Para aprofundar léxica e temas técnicos, consulte comentários e ferramentas lexicográficas; combine isso com a prática devocional e a vida de comunidade aqui propostas. A Escritura oferece o roteiro; o estudo erudito ajuda a percorrê-lo com fidelidade.
- D. A. Carson. Comentário Vida Nova sobre os Salmos. Vida Nova Editora, edição crítica e comentada com ênfase exegética e pastoral.
- Matthew Henry. Exposition of the Old and New Testaments: Complete Works on the Psalms. Edição clássica de referência para uso devocional e pastoral.
- Editora Paulus. Coleção sobre Salmos e Liturgia: estudos sobre tradição salmódica e culto bíblico, recursos para pesquisa litúrgica.

