Lamentar com fé: práticas tiradas da Bíblia
Uma mulher senta-se à beira do túmulo do marido. Não há palavras que preencham o vazio, apenas a memória e o silêncio. Na Bíblia encontramos cenas assim: um homem que perde tudo e rasga suas vestes (Jó 1.20), um povo que grita nos salmos e um Mestre que chora ao ver a dor humana (João 11.35).
Este estudo não oferece conselhos psicológicos fora da Escritura. Propõe quatro práticas de lamentação extraídas de Jó, dos Salmos e do ministério de Jesus, métodos que mantêm a fé no luto porque nascem do encontro honesto com Deus.
Começamos pela paisagem onde essas vozes nasceram — para entender melhor o que significa chorar diante do Senhor e continuar a crer.
Jó vive em Uz, descrição que remete a terras fora de Israel, num tempo patriarcal em que a honra família se confunde com bênção divina (Jó 1.1-5). O relato apresenta rituais de luto e símbolos sociais: cortar cabelo, rasgar roupas e prostração; práticas que anunciam dor pública e oração comunitária.
Os Salmos brotam do culto do templo e da experiência popular de Israel. Lamentos como o Salmo 22 ou o Salmo 88 mostram a liturgia da queixa: invocação, recordação de feitos divinos, descrição do sofrimento e pedido de livramento. Muitos deles eram cantados na assembleia, transformando dor pessoal em ação litúrgica.
No ministério de Jesus, o cenário muda para Galileia e Jerusalém, mas não o caráter do lamento. Ele se envolve com o pranto humano: chora por Maria e Marta (João 11) e sobre Jerusalém (Lucas 19.41). Na cruz Ele cita o Salmo 22 (Mateus 27.46), reafirmando que o lamento do Filho entra na tradição dos salmos e a converte em redenção.
Culturalmente, o luto bíblico é corporal e verbal. A expressão externa — lágrimas, rasgar roupa, jejum — é parte do discurso com Deus, não sua negação. Assim, entender o contexto social e cultual ajuda a ver o porquê de práticas que hoje soam estranhas serem, na Escritura, vias de fé.
Jó não se cala. Depois da perda ele profere maldições e perguntas duras: “Por que me constituíeste” (Jó 3.11-12). O Salmo 13 abre com um clamor repetido “Até quando…” (Salmo 13.1). A honestidade é a matéria-prima do lamento: falar a própria dor diante de Deus.
A Escritura descreve gestos precisos: Jó rasgou o manto e rapou a cabeça (Jó 1.20); o povo arranca os cabelos, senta em cinza e jejuam (ver práticas em 2 Samuel 1.11-12; Ester 4.3). Esses sinais corporais não são somente expressão de aflição, mas linguagem teológica: o corpo confessa que algo está quebrado sob o cuidado do Senhor.
Muitos salmos começam com queixa dirigida a Deus: “Por que me desamparaste?” (Salmo 22.1). Jesus na cruz cita essa mesma frase (Mateus 27.46), mostrando que o sentimento de abandono pode ser ofertado a Deus sem perder a fé. Lamentar é manter o diálogo, mesmo quando a resposta parece ausente.
Na língua hebraica, o verbo בכה (baka) significa chorar, prantear, verter lágrimas. Aparece repetidamente nas tradições de lamentação e funerais, indicando tanto o derramar de lágrimas quanto o lamento verbal. Em salmos e em narrativas, בכה nomeia a prática pública e privada do pranto, mostrando que chorar era uma forma legítima de dirigir-se a Deus.
No texto grego do Novo Testamento, João 11.35 registra ἐδάκρυσεν ὁ Ἰησοῦς, traduzido “Jesus chorou”. O verbo guarda a raiz δάκρυ, “lágrima”. Não se trata de um lamento retórico apenas, mas de verter lágrimas reais. A escolha desse verbo enfatiza a humanidade de Cristo e a validação do pranto como linguagem teológica.
A partir dessas palavras e gestos surge uma prática teológica: lamentar não é falta de fé; é fé em forma de voz quebrada. Jó, os salmistas e Jesus mostram que podemos levar ao trono de Deus a nossa perplexidade, o nosso sentir ferido e a nossa esperança ferida. Lembrar as palavras e os gestos bíblicos é praticar uma teologia do luto que mantém o crente ligado à aliança, mesmo quando as respostas tardam.

A prática do lamento pode ser traduzida em hábitos simples, fiéis às Escrituras, que ajudam a manter a fé no processo do luto. Aqui estão quatro práticas extraídas de Jó, dos Salmos e de Jesus, com passos concretos para a vida cristã em 2025.
- Lamentar com palavras honestas
Estruture sua oração seguindo o padrão salmódico: invocação, queixa, recordação das obras de Deus, pedido e compromisso de louvor. Por exemplo: comece com “Senhor”, exponha a queixa como Jó 3, recorde um ato de bondade de Deus e peça socorro. Use expressões simples e verdadeiras; refira-se ao padrão dos Salmos como guia.
- Usar o corpo e os ritos como linguagem teológica
Pratique gestos simbólicos que expressem perda e confiança: sentar-se em silêncio por um tempo definido, acender uma vela de memória, jejuar por um dia de oração, rasgar simbolicamente um papel representando o que foi perdido. Esses ritos corporais seguem a tradição bíblica e ajudam a nomear a dor.
- Buscar a comunidade e a liturgia
Não processe o luto só na intimidade. Reúna irmãos para orar usando um salmo de lamento, peça leitura compartilhada de passagens como Salmo 22 e João 11. A participação na assembleia transforma dor privada em culto público e sustenta a esperança coletiva. Para aprofundar estudos de termos e costumes, utilize ferramentas como https://ensinodabiblia.com.br/pesquisa-de-termos-biblicos-transforme-buscas-em-conteudo/.
- Memorializar com testemunho e esperança prática
Crie práticas de lembrança que orientem a ação: um álbum com textos bíblicos, um momento anual de oração, ou serviço de gratidão. Combine a memória com atos de misericórdia em nome daquele que se perdeu. Ao agir assim você segue o exemplo de Jesus que chora, mas continua a missão (ver João 11.35).
Passos semanais sugeridos
- Semanalmente, escreva um breve salmo pessoal de quatro partes: invocação, queixa, lembrança, pedido.
- Mensalmente, participe de um encontro de oração onde se leia um salmo de lamento em voz alta.
- Em ocasiões significativas, pratique um rito memorativo que envolva corpo e palavra (vela, canto, leitura de Escritura).
Ferramentas práticas
- Use uma Bíblia com notas e um comentário para contextualizar passagens de lamento.
- Consulte recursos do site para pesquisa de termos bíblicos e aprofundamento exegético: https://ensinodabiblia.com.br/
A Escritura não instrui a eliminar a dor: ensina a oferecê-la ao Senhor. Quando Jó rasga suas vestes e quando Jesus verteu lágrimas, a fé não foi negada; foi testada, articulada e rendida ao Senhor vivo. Lamentar é um ato de aliança.
Faça um compromisso concreto agora: eleja um salmo para acompanhar este mês e recite-o em voz alta três vezes. Permita que a linguagem bíblica molde sua dor e que a comunidade a carregue com você.
Roguemos que o Espírito dê coragem para falar honestamente, disciplina para praticar ritos que lembram e humildade para buscar irmãos. Que o lamento se transforme, pela graça, em esperança firme na promessa do cuidado divino.
Leituras internas recomendadas
- https://ensinodabiblia.com.br/pesquisa-de-termos-biblicos-transforme-buscas-em-conteudo/ — para estudo de raízes hebraicas e termos gregos
- https://ensinodabiblia.com.br/ — recursos gerais e artigos do projeto de ensino bíblico
Fontes teológicas eruditas
- D. A. Carson, Comentário Vida Nova sobre o Evangelho de João, Editora Vida Nova — análise exegética do pranto de Jesus em João 11.
- Matthew Henry, Comentário Exposto da Bíblia — reflexões sobre os salmos de lamento e práticas devocionais históricas.
- Comentários bíblicos sobre Jó e os Salmos nas edições clássicas e em volumes acadêmicos das editoras Vida Nova e Paulus.
Gestão de referências e ativos
- D. A. Carson — Commentary on the Gospel of John. Publisher: Vida Nova. (Authority: exegesis on John 11).
- Matthew Henry — Complete Commentary on the Bible. (Authority: historical devotional exposition of the Psalms).
- Editorial resources: Editora Vida Nova; Paulus Editora — recommended academic commentaries on Job and the Psalms.
- Internal resources: Pesquisa de termos bíblicos; Ensino da Bíblia.

