Ensino da Bíblia

Era madrugada quando Maria fechou a porta do quarto onde ainda cheirava a banho e a livro. As vozes dos vizinhos continuavam suas rotinas, indiferentes ao vazio que agora ocupava aquele espaço. No peito dela havia uma pergunta antiga que atravessa gerações: onde está Deus quando a vida se parte?

Essa cena remete ao berço das Escrituras — homens e mulheres que disseram o mesmo ao Senhor, olhos cheios de pó e palavras cheias de dor. A Bíblia não começa com respostas fáceis, mas com presenças que atravessam o silêncio. Neste estudo, abriremos textos que acompanham quem perdeu alguém: Jó, Lamentações 3, Salmo 23 e João 11, deixando as Escrituras falarem passo a passo.

Jó vive em Uz, território provavelmente a leste de Israel, em um ambiente pastoral e patriarcal onde honra e prosperidade se confundem com bênção divina. As calamidades que o alcançam não são apenas pessoais; são sociais e religiosas, questionando a lógica retributiva que muitas comunidades antigas adotavam. O livro abre um espaço onde o sofrimento é exposto sem mediação teológica simplista.

Lamentações situa-se após a queda de Jerusalém em 586 a.C. O orador escreve entre ruínas, com a cidade desfigurada e o Templo devastado. O lamento é coletivo, mas Lamentações 3 traz uma voz interior que oscila entre desespero e memória da fidelidade divina. O cenário é o de quem contabiliza perda e ainda procura sinais do pacto.

O Salmo 23 evoca o ofício do pastor num clima de pastoreio hebreu: o Senhor como רֹעִי, o meu pastor. A imagem é doméstica e cotidiana: pastagens, águas, mesas preparadas. Em meio ao conflito e ao exílio, a confiança numa guia que conduz e restaura afirma a presença contínua de Deus.

João 11 situa-se em Betânia, junto a Lázaro, Marta e Maria. Jesus caminha para um túmulo que simboliza tanto a impotência humana quanto a revelação messiânica. O evangelho de João apresenta sinais que concentram a glória de Cristo na derrota da morte, e aqui a narrativa transforma luto em epifania.

Entre esses cenários há convergência: o ambiente histórico e cultural esclarece como cada texto fala ao luto. Jó discute teodiceia nas rodas de conselhos; Lamentações fala do povo exilado; Salmo 23 confia na guia do pasto; João 11 revela a ressurreição como declaração de quem é Cristo.

Sofrimento que fala: Jó

Jó não é uma alegoria. É voz que pregunta, acusa e suplica. Quando Jó clama, ele não omite a angústia de achar-se traído pela ordem moral que conhecia. No ápice do diálogo, porém, surge uma declaração de esperança: “Eu sei que o meu Redentor vive” (Jó 19:25). A palavra hebraica גואל, goel, aponta para o parente vingador e redentor, aquele que restabelece laços e honra. Em contexto hebraico, o goel repara rupturas familiares; aplicado a Deus, implica que mesmo o que destruiu pode ser reparado por um parente divino que age em favor do oprimido.

Jó mostra que fé e queixa podem conviver. A exegese aqui nos permite ouvir que a afirmação de fé não exige anestesia emocional; antes, nasce no mesmo lugar onde há dor.

Lamento que lembra: Lamentações 3

Lamentações 3 abre um espaço de interioridade: o orante traz ao coração o peso do desespero e, em seguida, lembra. O verbo זָכַר, zakar, lembrar, atua como gesto teológico. Lembrar em Israel é evocar aliança, traz à tona promessas divinas que sustentam a esperança. Em 3:21 o autor diz que traz isso ao coração para recuperar esperança. O ato de lembrar não é memória neutra; é invocar a fidelidade passada de Deus como fundamento para esperar de novo.

Assim, o lamento não termina em amargura; converte-se em instrumento de memória que sustenta o possível reerguer.

O Pastor que guia: Salmo 23

No coração do salmo está רֹעִי, ro’i, meu pastor. Essa palavra carrega a imagem de cuidado cotidiano: condução, defesa, provisão. O salmista descreve jornadas através de “vales de sombra de morte” (גֵּיא צַלְמָוֶת), expressão que não nega a realidade do perigo, mas assegura a companhia do Pastor. A mesa que se prepara em presença do inimigo (v.5) traduz a soberania divina que transforma vulnerabilidade em celebração.

O Salmo 23 não promete ausência de dor. Promete, contudo, presença, direção e restauração; promete um Deus que torna caminho mesmo onde a morte lança sombra.

A Palavra que chama: João 11

No relato de João, Jesus diz: “Eu sou a ressurreição e a vida” (João 11:25). O termo grego ἀνάστασις, anastasis, refere-se ao ato de erguer-se, à restauração da vida; não apenas um retorno estático, mas uma nova postura de existência. Ao ordenar que a pedra seja removida, Jesus confronta o luto cerimonial e a impotência humana. Quando chama Lázaro, a voz que convoca funciona como sinal escatológico: a vitória sobre a morte inaugura o tempo do Reino.

João coloca o luto diante da promessa de vida. Não para minimizar a dor, mas para transformar a cena do túmulo em cenário de revelação.

Esses textos articulam um movimento que pode guiar quem perdeu alguém: a honestidade do lamento (Jó), a memória que reorienta a esperança (Lamentações 3), a presença que conduz na escuridão (Salmo 23) e a promessa de vida que quebra as cadeias da morte (João 11). Romanos 8:28 e 2 Coríntios 1:3-7 completam o quadro: se Deus “faz com que tudo conspire para o bem” para os que o amam, e é o Pai das misericórdias que nos consola para que possamos consolar, então o consolo bíblico não é teoria abstrata. É prática comunitária entre os que sofrem e os que acompanham.

No próximo segmento deste estudo cuidaremos da aplicação pastoral concreta, do roteiro de oração e das leituras para 30, 60 e 90 dias, mantendo sempre a Escritura como guia.

Para auxílio lexical e pesquisa de termos hebraicos e gregos citados aqui, consulte a ferramenta recomendada em Pesquisa de termos bíblicos e para recursos adicionais de preparação pastoral visite Ensino da Bíblia.

Representação bíblica
“Representação bíblica”

Quem perde alguém precisa de passos claros que anunciem a Palavra nas pequenas decisões do dia. Proponho um caminho prático em sete gestos, cada um fundamentado nas Escrituras e adaptado à vida cristã contemporânea.

  • Lamentar com honestidade: abra espaço para a queixa diante de Deus como Jó fez. Reserve tempo diário para verbalizar dor em oração ou em diário, empregando frases como: “Senhor, eu não entendo, mas coloco isso diante de ti”. Leia e medite Jó 1–2 e Jó 19:25 para aprender a conjugar queixa e profissão de fé.
  • Lembrar a fidelidade de Deus: pratique a memória do pacto como em Lamentações 3. Todas as manhãs escreva ou recite três lembranças da fidelidade de Deus em sua história pessoal ou na Escritura. Use Lamentações 3:21–23 como refrão que restitui esperança.
  • Viver a presença do Pastor: incorpore o Salmo 23 na rotina: caminhe imaginando a guia do Pastor, peça provisão e descanso. Em dias de angústia, repita o salmo em voz baixa, confiando na promessa do ro’i (meu pastor).
  • Abrir-se à promessa de vida: pratique a escuta do Senhor que chama, como em João 11:25–26. Faça um momento semanal de leitura do relato de Lázaro, orando para que a voz de Cristo encontre seus túmulos interiores.
  • Construir comunidade de consolo: atue segundo 2 Coríntios 1:3–7: aceite o consolo recebido e torne-se consolador. Identifique duas pessoas confiáveis para encontros semanais de oração e confissão pastoral.
  • Ordenar ritos e memória: celebre uma liturgia simples de despedida ou memória que inclua leitura bíblica, oração e testemunho. Permita que a igreja participe, transformando dor privada em cuidado público conforme a prática bíblica de comunidade.
  • Buscar ajuda especializada: quando o luto incapacitar a vida funcional, busque aconselhamento pastoral e terapia cristã. A Escritura convoca cuidado mútuo; não confunda fé com isolamento.

Rotina espiritual concreta para 30/60/90 dias

  • Primeiros 30 dias: Prioridade: lamentar e ser acompanhado. Leitura diária: Salmo 23 e passagens de Jó 1–2. Oração diária curta: confissão da dor, pedido de sustento (use frases breves e sinceras). Reuniões: ao menos uma conversa pastoral/semanal. Anote emoções e nomes que visitam a memória.
  • Dias 31–60: Prioridade: lembrar e estabelecer ritos. Leitura diária: Lamentações 3, leitura semanal mais longa: Jó 19 e João 11. Prática: compor um pequeno memorial (foto, canto, texto) e compartilhar em comunidade. Comece a oferecer consolo a alguém que sofre em pequena medida, exercendo 2 Coríntios 1.
  • Dias 61–90: Prioridade: integrar memória e missão. Leitura diária: combinações de Salmos (por ex. Salmo 23, 42, 63), capítulo de João 11 uma vez por semana e passagens de Romanos 8:28. Avalie com pastor/terapeuta sinais de progresso e decida celebração memorial pública ou ato de gratidão que inaugure continuidade de vida.

Roteiro de oração (modelo breve)

  • Acolhimento: reconheça a dor e nomeie a perda à luz das Escrituras. Use palavras como: “Senhor, trago a perda de (nome).”
  • Queixa: ofereça a queixa de Jó, explicando o que dói e perguntando a Deus.
  • Lembrança: leia Lamentações 3:21–23, recorde promessas e peça memória viva.
  • Entrega: recite ou medite o Salmo 23, pedindo a companhia do Pastor nas sombras.
  • Confissão de esperança: proclame João 11:25 e peça a voz de Cristo que chame vida aos túmulos internos.
  • Bênção e envio: peça consolo para que você e a comunidade possam consolar outros conforme 2 Coríntios 1:4–5.

Esses passos são diretrizes maleáveis; ajustem-se à situação pastoral, sempre ancorados na Escritura. Para estudo de termos que aparecem aqui, recomendo usar a ferramenta de pesquisa de termos bíblicos em https://ensinodabiblia.com.br/pesquisa-de-termos-biblicos-transforme-buscas-em-conteudo/ e a página inicial do ensino para recursos adicionais https://ensinodabiblia.com.br/.

O luto não é uma falha do sujeito; é a linguagem que o corpo e a alma usam quando confrontam a perda. A Escritura não promete isenção de dor. Promete, contudo, presença, memória e a voz que chama à vida.

Agora cabe agir: chore com honestidade, lembre com fidelidade, confie com persistência e caminhe com a comunidade. O Senhor que é o meu Pastor e o meu Redentor entra nas nossas noites mais escuras e transforma túmulos em lugares de encontro com a glória.

Guarde um tempo agora para esta oração breve de entrega: Senhor, neste momento coloco diante de ti (nome). Dona das lágrimas e sustentador das esperanças, vem socorrer, consola e muda nosso luto em serviço ao teu Reino. Ensina-nos a consolar outros como foste para nós. Amém.

Se sentir necessidade de acompanhamento, procure seu pastor, um conselheiro bíblico ou um profissional de saúde mental cristão. A prática do cuidado mútuo é mandamento vivo das Escrituras e parte essencial do caminho de cura.

Recomendações de leitura e recursos no blog

Fontes teológicas eruditas consultadas e sugeridas

  • D. A. Carson, Comentário sobre o Evangelho de João (edição Vida Nova). Leitura útil para entender o sentido de João 11 e a expressão da ressurreição como revelação da glória de Cristo.
  • Matthew Henry, Comentário Completo sobre a Bíblia. Útil para a leitura devocional e pastoral de textos como Jó, Salmos e Lamentações, oferecendo ponte entre exegese e aplicação.
  • Editora Paulus, obras de comentário bíblico e pastoral (variações editoriais). Consultar edições de Lamentações e Salmos para perspectivas históricas e litúrgicas.

Estas obras apoiam a leitura bíblica que aqui proponho: fiel ao texto e orientada ao cuidado pastoral. A Bíblia permanece a norma; os comentários ajudam a iluminar suas palavras para o consolo e a prática pastoral.


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