Ensino da Bíblia

Inspirado por Deus: Fé que vence o luto

Ela veio ao túmulo com o salmo na boca e as mãos vazias. Havia na sua garganta a mesma pergunta de Davi: “Por que estás abatida, ó minha alma?” (Sl 42).

Na pequena comunidade cristã de Roma, ouvia-se o mesmo lamento, mas também uma voz que apontava além do choro: Paulo, escrevendo sobre sofrimento e glória em Romanos 8:18-39. Este texto não apaga a dor; ele a insere numa narrativa maior, onde o Espírito intercede e a adoção rompe o silêncio do luto.

Abriremos esta passagem como quem abre uma carta de consolação antiga, seguindo o fio que liga os Salmos ao evangelho, para aprender como a certeza da redenção futura transforma sofrimento em caminho de esperança.

Paulo escreve a uma igreja mista, marcada por judeus e gentios, vivendo sob a sombra do império. Entre prisões, perdas e expectativas messiânicas, a comunidade pergunta se o sofrimento anula a promessa. Em Rm 8 essa inquietação é confrontada com uma teologia que troca fatalismo por esperança ativa.

Geograficamente e historicamente a carta nasce num ambiente mediterrâneo de deslocamentos e incertos retornos. Teologicamente ela se apoia na memória do Povo de Deus, nos Salmos que lamentam e esperam, e na convicção apostólica de que a história caminha para a redenção plena.

Culturalmente os leitores conhecem o preço do sofrimento coletivo: perdas econômicas, perseguições e a dor privada do enterro de entes queridos. É nesse tecido social que Paulo coloca termos como adoção, Espírito e a promessa de redenção, oferecendo não uma solução rápida, mas um horizonte escatológico que dá sentido à travessia. Para mais recursos e materiais de suporte pastoral, consulte o portal do ministério: https://ensinodabiblia.com.br/

Paulo contrapõe “os sofrimentos do tempo presente” e a “glória que há de ser revelada” (Rm 8:18). A tensão não é entre negação do real e fantasia, mas entre presente doloroso e promessa definitiva. Assim o crente não se alheia à dor; ele a lê à luz da promessa. O salmista que pergunta e espera (Sl 42) e o Pastor que guia e conforta (Sl 23) fornecem o tom litúrgico dessa leitura.

Dois termos-chave em grego iluminam o texto. Primeiro, παθήματα (pathēmata), traduzido por sofrimentos ou paixões, vem do verbo πάσχω, sofrer. Paulo usa o plural para abarcar dores variadas, físicas e cósmicas, pessoais e sociais. O plural indica experiência contínua e diversa, não um incidente isolado. Segundo, ἀπολύτρωσις (apolutrōsis), que aparece em Rm 8:23, refere-se à redenção, ao resgate definitivo do corpo. A raiz λύτρον lembra preço de resgate, mas, em Paulo, adquire sentido escatológico: não é mera restauração social, é transformação ontológica da criação. Para estudo prático de termos bíblicos e levantamento léxico, veja: https://ensinodabiblia.com.br/pesquisa-de-termos-biblicos-transforme-buscas-em-conteudo/

A certeza da υἱοθεσία (adoção) lança luz sobre o luto. Ser filho implica herança e relação: o sofrimento é atravessado pela promessa filial. O Espírito (πνεῦμα) atua como garantia e intercessor (Rm 8:23-27), trazendo a linguagem do salmo para o corpo da igreja. Quando as palavras faltam, o Espírito geme segundo Deus e submete o luto à esperança da redenção final.

Da exegese brotam passos concretos para acompanhar os que choram. Primeiro, proclamar a adoção por meio de liturgias que chamem pelo nome (Rm 8:15), reafirmando herança e pertença. Segundo, cultivar práticas de lamentação comunitária que permitam ao Espírito interceder, prestando atenção aos gemidos que não têm palavras (Rm 8:26). Terceiro, ancorar funerais e visitas em textos que cantem a promessa de redenção do corpo (Rm 8:23) e a presença do Pastor que guia (Sl 23), para que o luto se torne caminho de confiança e espera.

Nesta primeira parte aprendemos que Paulo não minimiza a dor. Ele a insere numa narrativa teológica que confere significado e fornece práticas pastorais enraizadas nas Escrituras. Na parte seguinte aprofundaremos como cada imagem — adoção, Espírito, redenção — opera pastoralmente nas comunidades que choram.

Representação bíblica
“Representação bíblica”

A teologia não fica só nos livros. Ela desce às mãos que limpam lágrimas, às mesas onde se compartilha pão e às reuniões que aprendem a gemer com o Espírito. A seguir, passos claros, ancorados nas Escrituras, para que comunidades e pastores traduzam Romanos 8 em prática pastoral e vida diária em 2025.

  • Proclamar a adoção liturgicamente: em batismos, visitas e proclamações, usar textos como Rm 8:15-17 para reafirmar pertença e herança. Nomear as pessoas em cultos e orações fortalece a identidade filial contra a solidão do luto.
  • Cultivar espaços de lamentação comunitária: criar encontros regulares para leitura guiada de Salmos (especialmente Sl 42 e Sl 23), silêncio compartilhado e oração. Ensinar a congregação a usar o vocabulário bíblico do lamento em vez de consolo superficial.
  • Treinar líderes para a escuta que acompanha: formar equipes de visitação que pratiquem ouvir sem apressar respostas, reconhecendo os παθήματα do enlutado e convidando o Espírito a interceder com gemidos (cf. Rm 8:26).
  • Incorporar ritos de memória e esperança: nos funerais e nas primeiras semanas após a perda, ler Rm 8:18-23 e salmos escolhidos; oferecer elementos simbólicos (por exemplo, vela, carta) que expressem confiança na redenção futura.
  • Oferecer acompanhamento prático: organizar grupos de apoio presenciais e virtuais, com roteiro bíblico. Usar a internet para manter o cuidado em contextos dispersos, unindo a comunidade local ao familiar distante via chamadas e recursos digitais.
  • Ensinar crianças e jovens sobre a esperança escatológica: criar materiais simples que expliquem υἱοθεσία e redenção com histórias bíblicas e memórias litúrgicas, garantindo que a fé se torne linguagem familiar em meio ao luto.
  • Orar e jejuar com intenção pastoral: promover calendários de intercessão congregacional centrados em Rm 8, pedindo que o Espírito guie a igreja no consolo e na proclamação da redenção prometida.
  • Usar recursos de estudo bíblico prático: incentivar o uso de ferramentas como a pesquisa de termos bíblicos. Uma sugestão útil é este guia sobre termos e pesquisa: https://ensinodabiblia.com.br/pesquisa-de-termos-biblicos-transforme-buscas-em-conteudo/ e explorar conteúdos formativos em https://ensinodabiblia.com.br/ para capacitação contínua.

A estrada do luto é real e longa. Paulo não promete atalho que ignore a dor. Ele promete, porém, que esse caminho está atravessado por uma história maior: a filiação divina, a presença do Espírito e a certeza da redenção do corpo.

Permita-se a honestidade do salmista e a firmeza do apóstolo. Permita que a congregação aprenda a lamentar sob o ensino das Escrituras e que o pastor ponha o peso das promessas bíblicas sobre os ombros que vacilam. Rezar com as palavras de Romanos 8 e dos Salmos é plantar sementes de esperança que o tempo revelará.

Antes de terminar, convido à oração breve: Senhor, que o teu Espírito nos ensine a gemer segundo Deus, que a nossa adoção seja fundamento de coragem, e que a promessa da redenção conduza cada passo de luto para a confiança. Amém.

Para aprofundamento e preparo pastoral, consulte estes recursos e artigos do ministério:

Fontes teológicas eruditas:

  • D. A. Carson, Comentário em Romanos (Coleção Comentário Vida Nova). Exposição analítica sobre a teologia pauliniana do sofrimento e da esperança.
  • Matthew Henry, Comentário sobre Romanos e os Salmos. Reflexões devocionais e práticas para pregação e consolação.
  • Recursos da Editora Paulus sobre cuidado pastoral e liturgia de despedida, para moldar ritos de memória com fidelidade bíblica.


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