Ensino da Bíblia

No Silêncio de Deus: Lições dos Salmos de Lamento

Era madrugada quando o canto nasceu da dor. Um homem sozinha na pedra, olhos pesados como o léxico das Escrituras, pergunta ao céu o que toda pele ferida deseja saber: onde está Deus? David, os filhos de Coré, e Heman ofertam essas vozes ao templo e ao deserto.

Esses salmos não são reflexões abstratas. São cartas escritas com lágrimas, endereçadas ao Senhor que prometeu presença. Ler Salmos 13, 22, 42 e 88 é ouvir corações que fazem a pergunta mais antiga: por que o Senhor parece ausente?

A proposta desta parte é abrir a cena, situar historicamente esses clamores e entrar no cerne das palavras hebraicas que moldam o sentir do lamento.

Os Salmos de lamento aqui escolhidos surgem em contextos variados, mas compartilham matriz litúrgica e existencial. Salmo 13 e Salmo 22 são atribuídos a Davi; Salmo 42 é ligado aos filhos de Coré; Salmo 88 nomeia Heman, figura cultual conhecida na tradição levítica.

Geograficamente, movemo-nos entre o ambiente do templo em Jerusalém e os espaços marginais — cavernas, exílio, águas das correntes. O lamento assume tanto a face individual quanto a corporativa: há vozes que representam o rei, o culto, e a comunidade em perigo.

Culturalmente, lamentar é forma de linguagem teológica. No Antigo Testamento, clamar ao Senhor é reconhecer a aliança. Mesmo quando o salmista se sente abandonado, ele apela aos termos da relação: misericórdia, fidelidade, aliança. Os lamentos funcionavam também como orações públicas, recitadas no culto e nos ritos de súplica, onde o sofrimento pessoal encontra a gramática sacerdotal da esperança.

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No cerne do lamento está um verbo que corta a carne da confiança: עזב, ‘azav, deixar, abandonar. Em Salmo 22:2 lemos, na voz de Davi, אֱלִי אֱלִי לָמָה עֲזַבְתָנִי — “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?”. A forma עֲזַבְתָנִי traz o perfeito qāl com sufixo pronominal: um abandono percebido como ato direto de Deus.

Linguisticamente, עזב comporta abandono físico e relacional; no corpus bíblico pode significar deixar alguém sozinho ou retirar apoio. Quando o salmista emprega עזב, não descreve apenas um acontecimento; ele articula uma relação quebrada contra a promessa de fidelidade divina.

Diante do verbo que queixa, a Escritura contrapõe חֶסֶדchesed — traduzido por amor leal, misericórdia ou graça de aliança. Nos lamentos, o clamor por חֶסֶד é também um apelo à memória do pacto. Salmo 13 muda de tom: depois de perguntar até quando (עד־מָתַי), o salmista afirma confiança e canta a salvação do Senhor (Salmo 13:5-6).

Essa dinâmica revela uma teologia prática: o sentimento de abandono convive com a promessa escrita no torah da aliança. O salmista pode perguntar com veemência, mas a referência a חֶסֶד restabelece o horizonte relacional em que a espera não é vazia.

Os Salmos de lamento têm uma arquitetura reconhecível: invocação, queixa, petição, recordação da ação divina, e, muitas vezes, confissão de confiança. Salmo 42 exemplifica essa oscilação: “Como o cervo suspira pelas correntes de água, assim a minha alma suspira por ti” (Salmo 42:1), e logo surge o cálice da angústia: “Por que te abates, ó minha alma?” (Salmo 42:11).

Salmo 88, porém, é singular por sua intensidade sem resolução clara; termina em escuridão litúrgica, lembrando que nem todo lamento resulta em conforto manifesto. Ainda assim, a Escritura nos dá essas vozes para que aprendamos a oração que não disfarça a dor.

Representação bíblica
“Representação bíblica”

Os Salmos de lamento não são meramente peças teóricas; são manuais de oração para quem sofre. Abaixo, passos claros e bíblicos para praticar a fé quando Deus parece ausente.

  • Ore com franqueza. Aprenda a verbalizar o abandono como fizeram os salmistas: “לָמָה עֲזַבְתָנִי” em Salmo 22 e o clamor de Salmo 13. A sinceridade é oração legítima diante do Senhor (Mateus 6:6). Ore não apenas por respostas, mas pela honestidade do coração.
  • Memorize e recite a promessa do pacto. Quando o sentimento vence a memória, traga à boca termos da aliança como חֶסֶד. Repetir passagens como Salmo 13:5-6 restaura o horizonte da esperança e reorienta a emoção para a história da salvação.
  • Use a liturgia do lamento. Estruture sua oração como os salmos: invocação, queixa, petição, recordação da obra divina e confiança. Em cultos ou em casa, forme grupos que aprendam a lamentar segundo a Escritura, incorporando cantos e leituras públicas, como faziam os filhos de Coré.
  • Pratique a presença comunitária. Leve seu sofrimento à igreja, ao conselheiro bíblico, ao ancião. O peso dividido torna-se suportável porque a Escritura pede intercessão e acompanhamento (Gálatas 6:2). Para estudar termos bíblicos e transformar dúvidas em conteúdo edificante, veja artigos como Pesquisa de termos bíblicos e aprenda a transformar perguntas em ensino.
  • Registre a jornada. Escreva salmos pessoais, guarde datas, registre orações atendidas. O exercício lembra a fidelidade passada de Deus e alimenta a confiança futura, tal como o salmista que rememora livramentos.
  • Busque práticas espirituais concretas. Jejum, jejum com oração, leitura meditativa dos Salmos e do Evangelho, música congregacional e silêncio vigilante. Essas práticas não anulam a dor, mas a enquadram na disciplina bíblica da espera e do louvor.
  • Receba aconselhamento enraizado nas Escrituras. Procure líderes formados e recursos confiáveis. O conselho bíblico alia empatia à exegese. Para aprofundar estudos e metodologias, consulte materiais de referência e cursos, inclusive conteúdos relacionados em Ensino da Bíblia.

Cada passo deve ser vivido como ato de fé, não como técnica. As práticas apontam para um Deus que acolhe perguntas e transforma o lamento em proclamação quando Sua fidelidade é lembrada e esperada.

O silêncio divino não anula a relação de aliança; ele a testa e a revela. Os salmistas não negam a dor, antes a colocam diante do Senhor e, assim, moldam uma fé que resiste à ausência aparente.

Leve hoje ao Senhor sua queixa com a mesma coragem de Davi: diga a palavra dura, mas não deixe de cantar a promessa. Repita frases da Escritura como um leme em noite tempestuosa; repita Salmo 13:5-6 e confesse que a esperança se ancora em Deus.

Se houver necessidade de arrependimento, que ele seja humilde e breve; se houver necessidade de persistência, que ela seja perseverante. Convoco você a uma oração agora: peça a Deus por clareza, por memória de Seu חֶסֶד, e por coragem para permanecer em comunhão.

Que a igreja aprenda a receber lamentos sem pressa de resolver, oferecendo presença, Palavra e sacramento. Assim a comunidade torna-se o lugar onde a fé aprende a esperar, mesmo quando a resposta se oculta.

  • D. A. Carson, Comentário Vida Nova sobre os Salmos — estudo exegético e pastoral que ilumina a estrutura e o propósito litúrgico dos salmos de lamento.
  • Matthew Henry, Comentário Completo sobre os Salmos — leitura devocional clássica que ajuda a ouvir a voz do lamento na experiência cristã.
  • Recursos da Editora Paulus sobre oração e salmos — coleções que unem erudição bíblica e prática pastoral.

Para estudo pessoal e ministerial, combine leitura exegética com formação pastoral e terapia espiritual bíblica. Os Salmos ensinam que a fé não é ausência de dor, mas a fidelidade que persiste na presença oculta do Deus vivente.


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