Ensino da Bíblia

Quando Deus parece ausente

Havia um homem chamado Jó que se levantou do pó e proclamou que não reconhecia o caminho de Deus diante dele. Em outra era, o profeta Habacuque gritou aos céus sobre a injustiça que consumia o seu povo. No Gólgota, um Filho pronunciou uma palavra antiga que ecoava dos salmos. Estas vozes compõem uma trama: a pergunta humana diante do silêncio divino. Nesta primeira parte, acolho o leitor por essa trilha de perguntas escriturísticas, onde cada lamento é também uma porta para a teologia da presença.

A narrativa que segue não é filosofia isolada; é estudo das Escrituras. Olharemos para , Habacuque, os Salmos 22 e 13, o grito registrado em Mateus 27 e as cartas de 1 Pedro, buscando pistas bíblicas para quando Deus parece ausente. Leremos as vozes que clamam, e aprenderemos a escutar a Palavra respondendo no silêncio.

Jó vive na terra de Uz, um espaço limítrofe e ancestral onde o sofrimento testa o pacto entre homem e Deus (Jó 1–2; 23:8–9). O livro situa-se no diálogo entre justiça retributiva e mistério da providência. A geografia de Uz não é apenas espaço físico; é palco para o choque entre experiência e doutrina.

Habacuque opera num contexto profético à beira do exílio, quando a opressão e a violência desafiam a confiança no Deus de Israel (Habacuque 1:2–4; 2:1–4). O profeta escuta o juízo que virá e interpela o Senhor por que permite o mal. Sua cena é urbana e política: Jerusalém e os impérios que atravessam a história.

Os salmos 22 e 13 nascem da liturgia do lamento. O salmista pronuncia palavras de angústia no idioma da vinha e do templo, pedindo socorro ao Deus que parece distante (Salmo 22:1; Salmo 13:1–2). O mesmo Salmo 22 é citado por Jesus na cruz, estabelecendo uma ponte entre a experiência individual do louvor e o evento salvífico no Gólgota (Mateus 27:46).

Mateus coloca o grito aramaico do Messias no centro de uma narrativa romana: crucificação, escárnio e cumprimento das Escrituras (Mateus 27:45–50). A cena é pública e teológica: o Filho experimenta o abandono que ecoa nos salmos.

1 Pedro escreve a comunidades dispersas e perseguidas, oferecendo interpretação pastoral do sofrimento: a prova da fé tem fim e propósito (1 Pedro 1:6–7; 4:12–19). O autor não promete ausência de dor, mas confere sentido cristológico e escatológico às provações. Para recursos e ferramentas do portal, veja nosso site.

Lamentos que falam a Deus

As vozes bíblicas não apresentam o silêncio de Deus como mero vazio; nomeiam-no, confrontam-no e buscam dele resposta. Jó pergunta onde Deus está enquanto mantém a sinceridade do seu apelo (Jó 23:3–10). Habacuque verbaliza a perplexidade: ‘Até quando, Senhor?’ (Habacuque 1:2).

O salmista abre o peito com palavras que, quando proferidas no Gólgota, são assumidas pelo Filho que se oferece por nós (Salmo 22:1; Mateus 27:46). Essas expressões de lamento são diálogos legítimos com o Senhor e pertencem à liturgia da aliança.

O termo hebraico עזב (azav) — “abandonar”

No hebraico do Salmo 22:1 aparece a forma עזבתני (azavtani), do verbo עזב. O sentido lexical é deixar para trás, abandonar, largar. O salmista sente-se deixado no desamparo mais absoluto: não é apenas ausência física, mas a percepção de ruptura na relação de aliança.

Essa palavra carrega carga relacional: romper pacto, privar da comunicação. Quando Jesus pronuncia o lamento do salmo, a linguagem do abandono atinge uma profundidade teológica, inserindo o desamparo humano no drama redentor.

“Lama” (לָמָה) e o verbo grego ἐγκαταλείπω

A pergunta aramaica לָמָה (por que?) que Jesus profere em Mateus 27:46 recupera a pergunta dos salmos. No texto grego aparece o verbo ἐγκαταλείπω/ἐγκατέλιπες, traduzível por “tu me deixaste”.

O verbo grego enfatiza o ato de largar, de cessar a presença ativa. Assim, o relato evangélico entrelaça a cultura semítica da lamúria com a teologia helenista do abandono. Para estudo lexical aprofundado, consulte nossa ferramenta de pesquisa de termos bíblicos: pesquisa de termos bíblicos.

1 Pedro e a interpretação pastoral do silêncio

1 Pedro não nega a realidade do sofrimento; antes, oferece leitura cristológica: a provedoria e o propósito atravessam a provação (1 Pedro 1:6–7). A carta convida a ler o desamparo à luz do exemplo de Cristo e da esperança escatológica.

O silêncio percebido não é prova de indiferença absoluta, mas espaço onde a fé é refinada e onde a promessa divina aguarda ser confirmada. A prática comunitária e a memória da cruz ajudam a interpretar o abandono sem perder a confiança na aliança.

Representação bíblica
“Representação bíblica”

Segue um roteiro de sete passos teológicos e espirituais, cada um ancorado nas Escrituras, para quando a sensação de abandono invade a alma.

  • Clamar com sinceridade — Abra o peito como Jó e os salmistas: declare seu lamento em palavras específicas. Ore usando a linguagem do salmo: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Salmo 22:1; Mateus 27:46). A oração crua não é falta de fé; é fidelidade à aliança que permite o diálogo.
  • Permanecer na Palavra — Não fuja do texto; deixe-o moldar sua voz. Leia, memoriza e medite em passagens que enfrentam o silêncio: Jó 23:8–10, Habacuque 2:4, 1 Pedro 1:6–7. Use ferramentas de estudo para clarificar termos hebraicos e gregos; a busca lexical transforma angústia em objeto de fé (pesquisa de termos bíblicos).
  • Confessar e examinar — Permita que o silêncio revele feridas e pecados ocultos. A confissão é prática bíblica que limpa a percepção: Salmo 51 e as cartas apostólicas mostram a via do arrependimento ativo. Confissão não é justificativa para desânimo; é abertura para restauração.
  • Ficar na comunidade — Não isole a fé. Busque irmãos que oram, aconselham e lembram das promessas divinas. A igreja vive o certo equilíbrio entre lamentar e esperar; 1 Pedro ensina que o sofrimento é partilhado e interpretado coletivamente. Para estudos práticos sobre termos e pregação, use recursos do nosso portal e ligue estudo a cuidado pastoral, como em nosso site.
  • Recordar a história da redenção — Leia a cruz à luz do Salmo 22: o abandono do Justo faz parte do plano salvífico. Medite em como Cristo transforma o desamparo em vitória (Mateus 27:45–50; 1 Pedro 2:21–24). A memória bíblica renova a esperança e situa o sofrimento no movimento de Deus pela redenção.
  • Praticar a paciência ativa — Cultive disciplinas que sustentam a fé: oração diária, jejum, leitura litúrgica e serviço ao próximo. A paciência não é apatia; é confiança obediente enquanto Deus trabalha (Jó 23:10; 1 Pedro 1:6–7). Essas disciplinas afinam a fé como ouro ao fogo.
  • Proclamar, mesmo no silêncio — Testemunhe que a fé persiste em perguntas não resolvidas. Cante salmos, proclame promessas e sirva em nome do Reino. O testemunho não exige respostas completas; exige fidelidade. A pregação honesta das Escrituras, sustentada por estudos sérios, transforma dor em ministério.

Cada passo exige prática concreta: marque horários de oração, escolha textos bíblicos para um ciclo de leituras de 30 dias, peça a um líder para acompanhamento pastoral. Esses gestos quotidianos reconciliam experiência e doutrina e tornam o caminho do sofrimento um caminho sacramental.

O silêncio divino, quando aparece, convoca a alma a uma teologia vivida. Não ofereço respostas fáceis, mas um caminho: lamentar com honestidade, firmar-se na Palavra, confessar, permanecer em comunidade, recordar a cruz, praticar disciplinas e testemunhar. Esses gestos formam uma resistência teológica ao desespero.

Façamos, agora, uma breve oração de entrega: Senhor, recebes nosso lamento; escuta nossas perguntas; purifica nossa fé e confirma a tua presença nas promessas. Que a esperança nas Escrituras nos conduza a agir com amor e perseverança. Amém.

Viva a disciplina do arrependimento e da caridade: procure um irmão confiável, busque aconselhamento bíblico e permita que a Escritura reconfigure sua dor em serviço e adoração.

Recursos internos para aprofundamento

Obras teológicas e comentários recomendados

  • Comentário Vida Nova de D. A. Carson — reflexões exegéticas e teológicas sobre os textos do Novo Testamento, úteis para ligar palavra e prática.
  • Matthew Henry, Exposition of the Old and New Testaments — leitura devocional e pastoral que ilumina salmos e livros de lamentação.
  • Para estudos em português e contexto católico, consultar edições da Editora Paulus que tratam da tradição dos salmos e da espiritualidade do sofrimento.

Estudo sugerido: combine leitura devocional com comentários acadêmicos, anotando termos hebraicos e gregos encontrados, e aplique essas descobertas na confissão, na pregação e no cuidado pastoral. Essas ações unem erudição e piedade, formando uma fé que resiste ao abandono.


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