Ensino da Bíblia

Há uma noite em Uz em que um homem senta-se entre cacos. As roupas rasgadas, a cabeça coberta de cinzas, os amigos que falam e não escutam. Ainda assim ele ergue uma declaração que atravessa séculos: existe um Redentor. Essa cena — Jób no chão, o salmista ao luar, Marta diante do túmulo de seu irmão — é a moldura onde aprendemos a ler o luto pela Escritura. Nesta primeira parte, caminharemos pelo contexto e pelo coração das passagens que sustentam o órfão, o viúvo e o que chora.

A história de Jób situa-se fora das fronteiras de Israel, em Uz, uma terra patriarcal onde honra, família e bênçãos materiais definem identidade. Jó 1–2 apresenta sofrimento como prova pública e litígio cósmico: o céu observa, os amigos acusam e o homem sofre. Nesse quadro cultural, perder filhos e bens significa perder status, proteção e, muitas vezes, senso de significado. Ler Jób é ver como o lamento público era uma forma legítima de diálogo com Deus e com a comunidade.

Os salmos de queixa — Salmos 6, 13, 22, 42, 73 — nascem em cultos, em peregrinações ou em noites de vigília. Eles combinam linguagem legal e litúrgica: o salmista clama, mas também recita a história de Deus como prova esperançosa. Salmo 22 inicia com um grito que depois se torna memória de libertação; Salmo 42 mostra sede por Deus em meio ao desânimo. A prática judaica de lamentar incluía cânticos, estruturas repetitivas e uma confiança confessional que mantinha o passante dentro do povo de Deus.

No Evangelho de João, o episódio de João 11 situa-se em Betânia, perto de Jerusalém; ali, a morte de Lázaro encontra a compaixão de Jesus que chora. A narrativa cristã inaugura uma resposta que não elimina a dor, mas a redimensiona pela presença do Ressuscitador. As cartas paulinas, especialmente 1 Tessalonicenses 4:13-18, tratam do luto dos que esperam os irmãos que dormiram, introduzindo a esperança escatológica como remédio teológico ao desespero. Romanos 8:31-39 articula essa esperança como segurança irrevogável: nem morte nem vida poderá separar do amor de Deus.

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Jób e os salmos nos ensinam a verbalizar o vazio. Jób protesta, amaldiçoa o dia em que nasceu e exige resposta; sua linguagem é direta, às vezes áspera, mas nunca desligada de Deus. Os salmos trazem um vocabulário semelhante: queixa, súplica, recordação da fidelidade passada. Essa honestidade tem função pastoral: não varre a dor, a nomeia diante do Senhor e da comunidade, convertendo a aflição em oração articulada.

Em Jó 19:25 surge uma palavra que ilumina todo o lamento: “Eu sei que o meu Redentor vive”. A expressão hebraica para Redentor deriva da raiz go’al (גאל), termo legal que aponta para o parente que reivindica, protege e vindica. No contexto do Antigo Testamento, o go’al é tanto aquele que resgata propriedade e família quanto o que assegura justiça contra a opressão. Quando Jób invoca o go’al, ele não apenas expressa esperança vaga; ele confessa a presença de um parente divino que reivindicará sua causa diante de um mundo injusto. Essa imagem dá densidade à fé no luto: não há abandono absoluto, há um que intercede e restitui.

1 Tessalonicenses 4:13-18 trabalha uma palavra grega que aponta para a esperança escatológica: parousia (παρουσία). Embora comumente traduzida como vinda, parousia carrega a ideia de presença oficial, chegada de um dignatário que transforma a situação daqueles que o aguardam. Paulo não promete um mero consolo emocional; ele anuncia a aparição real de Cristo que removerá o separador definitivo da morte. A terminologia remete a uma festa pública, a um retorno que redefine quem está perdido e quem está reunido. Associar essa esperança ao luto não reduz a dor, antes insere-a numa narrativa onde a separação tem um término prometido.

Romanos 8:31-39 oferece o contraponto pastoral: diante da morte, do perigo e de qualquer acusação, a Escritura articula uma teologia da adesão divina. Se Deus é por nós, quem será contra nós? não é uma fuga do sofrimento, mas uma âncora teológica. O lamento bíblico admite o vazio, mas o segura dentro da história da aliança. Quando os salmos devolvem memória e Jób confessa o go’al, a comunidade de fé aprende a orar com coragem e a esperar com firmeza.

Representação bíblica
“Representação bíblica”

O luto pede práticas que sejam ao mesmo tempo piedosas e simples. A Escritura oferece passos concretos que mantêm a fé viva no processo do choro. Cada passo abaixo encontra sua moldura em , nos Salmos, em João, em 1 Tessalonicenses e em Romanos.

  • Lamente com palavras bíblicas. Abra os Salmos de queixa: leia em voz alta Salmo 6, 13 e 42. Nomeie a dor, como Jób fez, e transforme o pranto em oração articulada. A prática diária de lamentar evita que o sofrimento se torne silêncio hostil a Deus.
  • Traga a sua queixa à presença viva. Inspire-se em Jó 19:25 e em João 11: clame por aquele que é Redentor. Reserve momentos de oração onde você declara: “Eu sei que o meu Redentor vive”. Isso não cancela a angústia; realinha-a à promessa do Redentor.
  • Abrace a esperança escatológica. Memorize e proclame 1 Tessalonicenses 4:13-18 e Romanos 8:31-39. A prática de repetir essas promessas transforma o luto em espera santa, pois a palavra parousia (παρουσία) nos coloca diante de uma presença que virá para reunir.
  • Viva em comunidade. Reúna irmãos para ler os salmos e repartir memórias do falecido. Use a Escritura como meio de cuidado pastoral: confissão, oração, e presença mútua que sustentam. Ferramentas como https://ensinodabiblia.com.br/pesquisa-de-termos-biblicos-transforme-buscas-em-conteudo/ ajudam a pesquisar termos como go’al e parousia e a formar estudos para grupos de apoio.
  • Ritualize a lembrança. Estabeleça práticas litúrgicas domésticas: leitura de passagens-chave, oração pelos mortos e participação na comunhão quando apropriado. A lembrança sacramental afirma que a morte não tem a palavra final e que a aliança permanece.
  • Procure orientação erudita e pastoral. Estude comentários confiáveis sobre Jó, os Salmos e João e busque aconselhamento bíblico. Recursos em https://ensinodabiblia.com.br/ oferecem conteúdos que conectam pesquisa acadêmica com cuidado prático.

Cultivar a fé no luto é aprender a permanecer com Deus quando as certezas caem. As Escrituras não prometem suavizar todo sofrimento imediato; prometem, porém, um Redentor presente e uma esperança que vence a morte. Leia, clame, espere e persista.

Antes de terminar, dobre os joelhos. Confesse a tentação de fechar o coração, peça arrependimento por qualquer endurecimento e entregue a saudade ao que vive para sempre. Que a sua oração seja simples: “Senhor, sustenta-me; lembra-me da tua fidelidade.” Permaneça sob a Escritura e permita que ela molde suas lágrimas em louvor.

Para aprofundar a leitura e a pesquisa bíblica, recomendamos os seguintes recursos internos e obras eruditas:

Obras teológicas recomendadas

  • Carson, D. A. Comentário Vida Nova sobre o Evangelho de João. Estudo académico que ilumina a compaixão e a obra redentora de Cristo em João 11.
  • Matthew Henry. Exposição Completa dos Livros da Bíblia. Comentário devocional e pastoral sobre os Salmos e a prática do lamento.
  • Editora Paulus. Comentários selecionados sobre os Salmos e o Antigo Testamento que aprofundam termos hebraicos como go’al.


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