Ensino da Bíblia

Quando Deus Cala: Permanecer na Fé

Num quarto escuro, uma mãe sussurra a mesma pergunta que Jó fez nas brumas do Oriente: onde está Deus? O grito atravessa gerações — do homem de Uz ao servo que agoniza na cruz — e passa pelas palavras amargas do salmista. Essas vozes não são meras queixas; são ritos de diálogo com o Reclamo divino.

Começamos este estudo caminhando entre os clamores bíblicos para aprender não a evitar o silêncio, mas a lê-lo à luz da Escritura. A narrativa que segue busca abrir portas para uma fé que persiste quando a voz de Deus parece ausente, apoiada nas Escrituras de Jó, no Salmo 22 e no silêncio de Cristo em Mateus 27.

Este é o primeiro passo de um roteiro: firmar a paisagem em que o silêncio acontece, ouvir as palavras originais e preparar o espírito para o caminho prático que virá nas partes seguintes.

Jó pertence a uma tradição sapiencial situada fora de Israel, provavelmente na terra de Uz, numa sociedade do antigo Oriente Próximo onde provações e bênçãos eram interpretadas à luz da aliança e da justiça retributiva. O drama de Jó expõe a tensão entre experiência e doutrina quando o sofrimento desafia a compreensão religiosa.

Enquanto Jó perde família, riqueza e saúde, suas palavras moldam um diálogo teológico que atravessa tribunal e céu (Jó 1–2; 23).

O Salmo 22 nasce no contexto litúrgico e pessoal de um salmista que usa a linguagem do desamparo para pintar uma cena de abandono e, progressivamente, de confiança restaurada. O salmo abre com o clamor «Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?» (Salmo 22:1) e termina com confiança messiânica e louvor público (Salmo 22:22-31). No templo e na devoção israelita, lamentos assim eram formas legítimas de oração, não mera rebeldia.

Mateus 27 situa o silêncio de Cristo no Gólgota, sob o domínio romano e em frente a espectadores que interpretam de modo falho o significado daquele último suspiro. Ao citar o Salmo 22 (Mateus 27:46) Jesus vincula sua experiência ao salmo de lamentação e entrega, mostrando que o silêncio da cruz é também cumprimento e palavra encarnada.

Esses três cenários — o deserto teológico de Jó, o culto do salmista e a cruz de Cristo — formam a paisagem bíblica onde aprendemos a articular fé em meio ao silêncio divino.

O clamor e sua raiz hebraica

No centro do Salmo 22 está a expressão hebraica לָמָה עֲזַבְתָּנִי (lama azavtani): «por que me desamparaste?». O verbo עזב (ʿazav) carrega a força de deixar, abandonar ou largar. Linguisticamente, não se trata apenas de sentir-se só; é denunciar uma experiência de separação que fere a confiança no pacto.

Quando o salmista profere ʿazav, ele coloca sobre o tabuleiro teológico a crueza de uma experiência que exige resposta.

Jó e a busca por voz divina

Jó não se conforma com uma explicação punitiva simplista. Suas palavras — «oxalá eu soubesse onde o achar» (Jó 23:3) — revelam um anseio por audiência divina e por justiça na presença de Deus. A Escritura registra tanto a sua denúncia quanto sua perseverança.

Jó insiste em buscar a face do Senhor mesmo quando a voz permanece ausente. A narrativa não elimina a dor, mas mostra que franqueza diante de Deus é uma forma legítima de comunhão (Jó 13:24; Jó 23:8-10).

O silêncio de Cristo como cumprimento e identificação

Quando Jesus clama em aramaico, «Eli, Eli, lema sabachthani?» (Mateus 27:46), Ele ecoa o Salmo 22 e encarna o abandono humano. O texto grego preserva a forma aramaica, indicando intenção teológica: o Filho se identifica plenamente com o lamento do salmista e com o estado humano de ser sentido como desamparado.

Porém, o salmo não termina na desesperança; ele desloca o clamor para a adoração e a proclamação do Senhor entre as nações (Salmo 22:27-31). Assim, o silêncio da cruz é simultaneamente experiência de abandono e declaração escatológica.

Trajeto bíblico do lamento à confiança

A Escritura constrói um arco: o lamento sincero (Jó; Salmo 22:1-11), a busca por resposta (Jó; Salmo 22:12-21) e a reviravolta que devolve louvor (Salmo 22:22-31). Este movimento não promete ausência de dor, mas apresenta um método espiritual: nomear a dor diante de Deus, aguardar e proclamar a fidelidade divina quando a história é vista à luz do Senhor.

Esses textos nos ensinam que o silêncio divino, lido pela Escritura, é terreno de encontro, não apenas de vazio. Para aprofundar o estudo de termos originais e transformar buscas em conteúdo aplicável à pregação e ao aconselhamento, utilize recursos de pesquisa como https://ensinodabiblia.com.br/pesquisa-de-termos-biblicos-transforme-buscas-em-conteudo/ e visite https://ensinodabiblia.com.br/ para materiais adicionais.

Representação bíblica
“Representação bíblica”

A Escritura nos oferece não teorias vagas, mas passos concretos para manter a fé quando Deus parece calar. A seguir, sete ações enraizadas nas Escrituras, cada uma com um versículo para sustentar a prática diária.

  • Nomeie a dor e leve-a a Deus

    A primeira resposta bíblica é dar nome ao sofrimento diante do Senhor. Não oculte o lamento: fale como o salmista e Jó. Use a linguagem da Escritura para que seu sentir se torne oração.

    Versículo: Salmo 22:1 — «Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?»

  • Persista na busca da face de Deus

    Jó ensina a procurar a presença divina mesmo quando a voz não responde. Levante-se e procure, ore com ousadia, retome o caminho da comunhão.

    Versículo: Jó 23:3-10 — «Oxalá eu soubesse onde o achar… ele conhece o caminho por onde vou»

  • Memorize e recite promessa bíblica

    Quando o silêncio aumenta, a memória da palavra segura a alma. Colete promessas que confrontem o medo e repita-as nas horas de tensão. Ferramentas de busca de termos bíblicos ajudam a encontrar textos certos para cada angústia: https://ensinodabiblia.com.br/pesquisa-de-termos-biblicos-transforme-buscas-em-conteudo/

    Versículo: Salmo 22:22-24 — louvor e declaração da fidelidade divina após o lamento

  • Receba a comunidade como presença de Deus

    A Escritura trata a igreja como corpo que sustenta. Compartilhe sua luta, permita orações, aceite correção e consolo. O sofrimento partilhado reduz o peso do silêncio.

    Versículo: Tiago 5:16 — «Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros»

  • Pratique o culto mesmo no vazio

    O salmo que começa em abandono termina em adoração. Ofereça ao Senhor louvor e ações de graças mesmo sem resposta imediata; isso reorienta a alma para a fidelidade, não para o sentimento.

    Versículo: Salmo 22:27-31 — proclamação e louvor entre as nações

  • Use o silêncio de Cristo como molde teológico

    Meditando em Jesus que recitou o salmo na cruz, compreendemos que o abandono pode ser via de redenção. Deixe que o silêncio de Cristo transforme seu sofrimento em entrega ativa: submissão criativa, serviço humilde e oração intercessora.

    Versículo: Mateus 27:46 — «Eli, Eli, lema sabachthani?» — identificação redentora com o lamento humano

  • Ore com expectativas formadas pela Escritura

    Combine súplica e espera com a certeza de que Deus atua na história. Registre sinais de graça, releia-os e permita que a esperança se fortaleça. Para aprofundar termos e raízes bíblicas que consolidem sua oração, consulte recursos de pesquisa e estudo avançado como https://ensinodabiblia.com.br/

    Versículo: Romanos 8:28 — «Sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus»

Cada passo exige disciplina espiritual: nomear, buscar, lembrar, partilhar, adorar, meditar em Cristo e esperar. Pratique diariamente: escreva um salmo pessoal, combine um irmão para orar, memorize uma promessa semanal. A fé se mantém quando se transforma em hábito fiel à Escritura.

Ao concluir, lembre-se de que o silêncio de Deus, conforme a Escritura, não é o silêncio final. Ele é território onde a alma é provada e moldada. Jó nos mostra a coragem de enfrentar a ausência; o salmista, a honestidade do lamento que termina em louvor; Cristo na cruz, a redenção que passa pelo abandono.

Dirija agora uma oração breve e concreta: confesse onde falhou em esperar, peça coragem para nomear a dor, comprometa-se a praticar um dos passos propostos esta semana. Arrependimento e esperança caminham juntos quando voltamos nosso rosto para o Senhor com fidelidade bíblica.

Permaneça em comunhão com a Escritura e com o corpo de Cristo. Permita que o silêncio seja um espaço de encontro, não de desserviço à fé. Que a sua confiança seja reconstruída não por sentimentos, mas por práticas enraizadas na Palavra.

  • Recursos internos para estudo: https://ensinodabiblia.com.br/pesquisa-de-termos-biblicos-transforme-buscas-em-conteudo/ e https://ensinodabiblia.com.br/
  • Comentário Vida Nova de D. A. Carson — análise exegética e teológica sobre o Novo Testamento que ilumina a leitura de Mateus e a identificação de Cristo com o salmo de lamento.
  • Matthew Henry, Comentário Completo — sólido tratamento devocional e pastoral dos Salmos e dos livros sapienciais, útil para ver como oração e lamentação se articulam na vida prática.
  • Obras da Editora Paulus sobre Salmos e livros sapiencais — publicações que combinam pesquisa histórica e aplicação litúrgica para o uso da congregação.


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