Sustentar a Fé no Sofrimento Prolongado
Havia uma mulher chamada Ana, cujo nome os leitores da Escritura lembram por uma oração que não encontrou resposta visível por anos. Ela ia ao templo carregando uma ferida que ninguém via, até que suas palavras, repetidas em silêncio, se tornaram a origem de um hino de esperança. Assim começa qualquer jornada de fé que se estende: no lugar onde o peito dói mais, a voz se faz prece.
O livro de Jó abre essa narrativa em grande escala, com perdas que desmontam uma existência inteira (Jó 1–2). Os salmos de lamentação, como o Salmo 22 e o Salmo 13, traduzem em linguagem cultual e pessoal a experiência do abandono e da súplica. As cartas de Paulo e de Tiago entram nessa cena não para estetizar a dor, mas para nomeá-la e moldar uma resposta espiritual que confessa, transforma e testemunha.
A leitura que segue toma essas passagens como um corpo único que diagnostica dúvidas, raiva e busca de sentido, e que aponta vias pastorais para caminhar com o aflito.
Jó pertence à antiga periferia do pensamento bíblico, situado numa terra chamada Uz, fora das fronteiras históricas de Israel. A estrutura do livro dialoga com a sabedoria do Oriente Próximo: discursos poéticos, diálogos de amigos e uma cena sacerdotal no final. O texto apresenta um homem justo que sofre sem causa aparente, interrogando a clássica ligação retributiva causa-efeito.
Os Salmos de lamentação nascem na prática cultual de Israel. Eram entoados na assembléia ou na solitude, articulando queixas a Deus, pedidos de socorro e, muitas vezes, movimentos de confiança. O Salmo 22 exemplifica uma queixa que atravessa sentidos históricos de humilhação e linguagem messiânica; o Salmo 73 oferece o drama do coração perturbado pela prosperidade dos ímpios.
As cartas paulinas e a epístola de Tiago respondem a sofrimentos concretos em comunidades: 2 Coríntios reflete a experiência de perseguições, ameaças e a teologia do conforto divino (2 Co 1:3-11). Em Romanos, a teologia do sofrimento é tecida com a esperança que não decepciona (Rm 5:3-5). Tiago coloca a provação como lugar formativo da perseverança e da maturidade praticada na comunidade (Tg 1:2-4).
Contexto, portanto, não é só cronologia; é liturgia, prática e experiência de igreja.
Jó apresenta um diagnóstico severo e compassivo. A dor revela perguntas fundamentais: por que a justiça humana não garante proteção? Por que o atribulado sente-se esquecido por Deus (Jó 19:7-10)? Em Jó 1–2, a narrativa permite que o sofredor fale com franqueza e que os interrogantes permaneçam diante de Deus. O movimento final não elimina a pergunta, mas restitui o diálogo e, com isso, a possibilidade de sustentação comunitária e teológica.
Os salmos modelam uma liturgia da queixa que não se aparta da fé. No Salmo 22 o salmista uiva “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Sl 22:1), frase que atravessa o caos da sensação de abandono e, ao mesmo tempo, abre espaço para confiar nas promessas de libertação. No Salmo 13 a súplica avança de “até quando?” para a declaração de esperança Salmo 13:5-6. O Salmo 73 mostra o conflito interior: inveja da prosperidade dos ímpios e, depois, recolhimento à presença de Deus como lugar de correção e perspectiva (Sl 73:16-17).
Paulo, em 2 Coríntios 1:3-11, recolhe sua experiência pessoal de “muitos perigos” e funda uma teologia do consolo que habilita a consolar os outros. Ele vê no sofrimento não apenas um problema, mas um meio pelo qual Deus manifesta consolo e solidariedade. Em Romanos 5:3-5 o vocábulo grego θλῖψις aparece ligado à esperança: “a tribulação produz perseverança, e a perseverança, caráter, e o caráter, esperança” (Rm 5:3-4). Tiago, por sua vez, radicaliza o aspecto formativo: considerar a provação como ocasião de alegria porque produz perseverança que culmina em maturidade espiritual (Tg 1:2-4).
O termo grego θλῖψις, traduzido normalmente como aflição, tribulação ou pressão, carrega a imagem de compressão, de estar apertado por circunstâncias externas que provocam sofrimento. Em Romanos 5:3 a ênfase é processual: a compressão gera resistência que lapida o caráter. Já πειρασμός, empregado em Tiago 1:2, tem campo semântico ligado a prova, teste ou tentação. Nem sempre implica punição moral; muitas vezes refere-se a um crivo que revela a fé.
Comparando com o hebraico צָרָה (tsarah), usado em muitos salmos para indicar aflição ou aperto, percebemos continuidade semântica: o sofrimento é descrito como lugar de aperto que exige resposta. A distinção prática entre θλῖψις e πειρασμός ajuda na pastoral: reconhecer quando alguém está submerso em pressão imposta e quando a experiência tem caráter de prova que pede perseverança. A Escritura usa ambas as categorias para dar nome à dor e oferecer caminhos de resistência e esperança.
A exegese mostra que a Escritura não encerra a queixa imediatamente. Ela recebe a raiva, a dúvida e o lamento como matéria legítima da relação com Deus. Em Jó a honestidade diante de Deus é a primeira etapa; nos salmos a liturgia transforma a queixa em intercessão; nas cartas do Novo Testamento a prova se insere numa narrativa de formação e solidariedade comunitária.
Deste centro bíblico emergem orientações práticas que serão tratadas na segunda parte: oração que confessa, memória das promessas, presença comunitária, liturgia do lamento, esperança ativa e testemunho.

A Escritura não nos deixa sem mãos para agir. A partir de Jó, dos salmos de queixa e das cartas apostólicas, proponho seis passos cristãos, claros e verificáveis, para sustentar a fé em sofrimentos que se estendem.
- Oração que confessa — Faça da oração um lugar de linguagem honesta. Use práticas breves e repetíveis: uma oração de manhã que nomeie a dor, outra à tarde que peça consolação e uma de noite que entregue temores a Deus. Ancorar-se em fórmulas bíblicas ajuda: repetir Salmo 13:5-6 e a oração de Jó quando as palavras faltarem.
- Memória das promessas — Crie um conjunto de textos memorizados: Romanos 5:3-5, 2 Coríntios 1:3-4 e promessas dos salmos. Colete esses versículos num caderno ou num bloco do celular e leia-os nos momentos de aperto. A memória bíblica opera contra a amnésia espiritual que a dor provoca.
- Comunidade encarnada — Busque presença real: um amigo que ouça, um líder pastoral que acompanhe, um pequeno grupo que pratique respiração bíblica. Inscreva-se em ministérios de cuidado na igreja, participe de estudos como os oferecidos em https://ensinodabiblia.com.br/cartas-de-paulo-guia-pratico-para-discipulado/ para ancorar a vida nas cartas paulinas e em recursos como https://ensinodabiblia.com.br/ para formação contínua.
- Lamentação litúrgica — Estabeleça ritos de lamento. Leia em voz alta salmos de queixa (por exemplo Salmo 22:1 e Salmo 73:16-17) em encontros semanais ou inclua-os nas liturgias da comunidade. Ensine a congregação a responder com silêncio, com intercessão e com símbolos (vela, pergaminho onde se escreve o nome do que sofre).
- Esperança ativa — Transforme espera em ação obediente. A esperança bíblica não é passiva. Faça pequenas obras de misericórdia, manutenção de corpos e rotinas diárias, e comprometa-se com hábito espiritual (estudo bíblico diário, jejum tático, serviço regular). Essas ações guardam o coração contra o desespero e cumprem a lógica de Romanos 5:3-4.
- Testemunho fiel — Sempre que for seguro, compartilhe o que Deus tem feito no caminho do sofrimento. Testemunho não é exposição de dor, mas confissão de graça. Registre os sinais de consolação e da fidelidade divina; publique com prudência (em redes ou boletins) para edificar outros que ainda estão na provação.
Cada passo pede ritmos e medidas pastorais: avaliar limites, proteger a privacidade e articular encaminhamentos clínicos quando necessário. Essas práticas são aplicáveis hoje: use tecnologia para memórias bíblicas, mantenha encontros presenciais quando possível e integre ministérios de cuidado como parte permanente da vida congregacional.
A grande lição bíblica é esta: Deus permite que a voz do aflito chegue a si. A Escritura acolhe a pergunta, encoraja a queixa e redime a experiência pelo consolo que se torna capacidade de consolar. Como Jó, podemos não receber respostas completas, mas somos convidados a continuar diante de Deus.
Convido o leitor a um exercício prático agora. Pare, escolha um versículo entre Salmo 13:5-6, Romanos 5:3-5 ou 2 Coríntios 1:3-4, e repita-o três vezes como oração. Entregue a dúvida e peça coragem para permanecer na fidelidade. Que essa pequena disciplina se torne o começo de um caminho de cura, responsabilidade comunitária e testemunho.
Oremos como povo que conhece a dureza da vida e a ternura do Deus que consola. Peça perdão onde houver amargura; peça força onde tudo parece ruir; peça paciência para esperar o tempo de Deus. A ação teológica agora é prática: ajunte-se a outros, recite as promessas, chore onde for preciso e levante-se para servir.
Para aprofundar:
- Estudo prático sobre as cartas de Paulo: https://ensinodabiblia.com.br/cartas-de-paulo-guia-pratico-para-discipulado/
- Recursos gerais de ensino bíblico: https://ensinodabiblia.com.br/
Obras consultadas e recomendadas:
- D A Carson, Comentário Vida Nova sobre o Novo Testamento, volumes sobre Romanos e 2 Coríntios, Editora Vida Nova.
- Matthew Henry, Comentário Completo da Bíblia, análise pastoral dos Salmos e de Jó, edição disponível em formato impresso e digital.
- Coletânea de comentários do Antigo Testamento, Editora Paulus, volumes sobre Jó e os Salmos de lamentação.
Estas obras oferecem profundidade exegética e riqueza pastoral que sustentam as aplicações aqui propostas. Que a leitura teórica acompanhe sempre o cuidado prático com os que sofrem.
Referências acadêmicas citadas
- D A Carson — Comentário Vida Nova (volumes sobre Romanos e 2 Coríntios), Editora Vida Nova.
- Matthew Henry — Comentário Completo da Bíblia (análise pastoral dos Salmos e de Jó).
- Editora Paulus — Coletânea de comentários do Antigo Testamento (volumes sobre Jó e os Salmos de lamentação).

