Ensino da Bíblia

Sustento na Dor: Fé que Persevera

Ela sentou-se junto ao sepulcro, as mãos vazias e a oração presa na garganta. Alguém começou a entoar um cântico antigo: “O Senhor é o meu pastor”. A frase, porém simples, abriu uma porta no peito da mulher, a lembrança de outras vozes, a de uma irmã que contou sobre um homem que disse: “Eu sou a ressurreição e a vida”.

Esse encontro entre a voz do rei-shepherd e a palavra do Senhor da vida modela nossa jornada pelo luto. O leitor será levado pelas Escrituras, Salmos 23, João 11 e 1 Tessalonicenses, para descobrir como a Palavra fala à carne ferida e ao coração que não se conforma com a ausência.

Salmos 23 nasce na paisagem de ovelhas, pastores e veredas; o salmista fala de fontes, pastos verdes e da “vereda da justiça”. David, homem marcado por campos e covas, usa a imagem pastoral para expressar confiança em Yahweh que guia, dá pasto e protege.

O termo hebraico para vale, frequentemente traduzido como “vale da sombra da morte” (בְּגֵיא צַלְמָוֶת), evoca as ravinas do antigo Israel, lugares onde o perigo físico se misturava ao medo existencial.

João 11 situou-se em Betânia, perto de Jerusalém, onde a morte de Lázaro foi testemunho e teatro do poder de Cristo. Aos judeus, o sepultamento e os costumes de luto tinham densas referências escatológicas: a esperança da ressurreição individual no último dia e o peso da presença divina no sepulcro.

Jesus, chegando depois de quatro dias, trava com a morte um diálogo que revela autoridade sobre o fim humano (João 11:17–44).

A igreja de Tessalônica viveu a ansiedade dos que perdem irmãos num tempo de perseguição. Paulo escreve para consolar, não com abstrações, mas com uma esperança encarnada: Cristo ressuscitou e os que dormem nele serão trazidos com ele (1 Tessalonicenses 4:13–18).

O cenário pastoral de Paulo é comunidade em luto, gente que precisa de ensino pastoral que transforme saudade em esperança ativa.

O salmo apresenta Yahweh como pastor: conduz, restaura, guia por veredas. No verso “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum; porque tu estás comigo” (Salmo 23:4), a presença divina é a resposta ao medo. A Escritura não promete ausência de dor, mas garante a companhia do Pastor na travessia.

O substantivo רֹעִי, geralmente traduzido “meu pastor”, vem da raiz רעה que significa cuidar, apascentar, conduzir. No campo semântico bíblico, o pastor não é apenas guardador de rebanho; é guia, alimentador e defensor que põe-se entre a presa e o perigo.

Quando Jesus afirma “Ἐγώ εἰμι ἡ ἀνάστασις καὶ ἡ ζωή” (João 11:25), ele não fala apenas de futuro escatológico, mas de uma presença que transforma o presente do luto. A narrativa de Lázaro — o choro de Jesus, a ordem de tirar a pedra e a voz que chama o morto — mostra que a ressurreição é tanto promessa última quanto intervenção já atuante na história humana.

O termo ἀνάστασις aponta para um levantar, um estabelecimento de nova existência. No uso joanino, indica não só o retorno à vida biológica, mas a inauguração de uma condição onde a morte perde a palavra final.

Paulo encontra uma igreja que chora e escreve para consolá-la com palavras que fundamentam a esperança comunitária. Em 1 Tessalonicenses 4:13–18, ele redireciona o luto para a expectativa: os que dormem em Cristo serão reunidos com ele.

Παρακαλέω carrega o sentido de chamar alguém para junto, de encorajar. A escolha lexical pastoral de Paulo mostra que o remédio bíblico para o luto não é resignação estoica, mas cuidado mútuo fundamentado na promessa da ressurreição.

Assim, o consolo apostólico atua na comunidade que se lembra das Escrituras e, nelas, reencontra coragem para caminhar. Esses textos se entrelaçam: o Pastor que guia, o Senhor da vida que chama Lázaro e o apelo pastoral para consolo mútuo formam um tecido bíblico onde o luto é atravessado pela presença, pela palavra e pela esperança.

Representação bíblica
“Representação bíblica”

A fé no luto se aprende na prática cotidiana, à luz da Escritura. Comece estabelecendo um tempo ritualizado para o lamento: leia em voz alta Salmo 23, escreva o que dói e o que lembra do amado. O salmo funciona como molde de oração que alterna confiança e vulnerabilidade, ensinando a falar com Deus no meio da perda.

Cultive a memória cristã em comunidade. Reúna irmãos para lerem juntos João 11 e orarem, permitindo que a narrativa de Lázaro transforme o choro em escuta da voz que chama. Use pequenos grupos para exercer παρακαλέω: encorajar, visitar, levar uma refeição, acompanhar o enlutado nas primeiras semanas.

Práticas espirituais diárias que sustentam:

  • Leitura devocional de manhã: um capítulo dos Salmos e um texto dos Evangelhos.
  • Jornal de lamento: registrar promessas bíblicas respondendo às queixas do coração.
  • Ritual de lembrança semanal: acender uma vela, recitar 1 Tessalonicenses 4:13–18 e orar pela ressurreição futura.

Para líderes e conselheiros, ofereça orientação que una compaixão e ensino bíblico. Modele a linguagem pastoral do Pastor (usar רֹעִי como imagem), oriente liturgias funerárias que proclamem a ἀνάστασις, e organize visitas que priorizem presença sobre palavras.

Encaminhe quem sofre para leitura sistemática das Epístolas de Paulo, lembrando o tom de consolação apostólica encontrado em cartas instrutivas como a que trata do discipulado — veja recursos práticos em https://ensinodabiblia.com.br/cartas-de-paulo-guia-pratico-para-discipulado/.

Ações práticas para a igreja local:

  • Formar equipes de presença: visitas semanais, oração telefônica e auxílio prático.
  • Oferecer oficinas de lamentação bíblica, ensinando salmos de lamento e orações de intercessão.
  • Promover celebrações de memória após os ritos formais, onde a comunidade proclama a esperança pascal.

Integre cuidado pastoral e terapia quando necessário. O texto bíblico orienta a caminhada, mas reconhece limites humanos; encaminhamentos para aconselhamento profissional devem ser feitos com sensibilidade e oração.

Para aprofundamento doutrinário e prático sobre cartas paulinas e discipulado, consulte também https://ensinodabiblia.com.br/ que contém materiais complementares à prática congregacional.

A Palavra nos conduz do pasto ao sepulcro e dali a uma esperança que não desiste. O luto não é problema a ser eliminado, mas caminho a ser peregrinado com o Pastor, com o Senhor da vida que chama e com irmãos que consolam segundo a promessa.

Paulo nos lembra a ordem da esperança: conhecer as Escrituras, consolar segundo a Escritura e esperar a manifestação do Senhor. A resposta prática é oração que confessa dor, arrependimento que purifica relações, e ação que sustenta a comunidade em caminhada.

Convido o leitor agora a uma oração breve: Senhor, tu és meu Pastor; nas veredas de morte, vem comigo. Faze-nos ouvir tua voz que chama, ensina-nos a consolar segundo teu Espírito e sustenta nossa fé até o dia em que toda lágrima será enxugada. Amém.

Links internos úteis:

Obras teológicas recomendadas:

  • D. A. Carson, Comentário do Novo Testamento (Coleção Vida Nova), volume sobre João — leitura crítica e exegética para aprofundar João 11.
  • Matthew Henry, Comentário completo sobre os Salmos e os Evangelhos — rico em meditação pastoral para lavar o luto através de Salmo 23.
  • Publicações da Editora Paulus sobre pastoral do luto e liturgia funerária — recursos para práticas congregacionais.


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