Ensino da Bíblia

Deus ausente? Lamentos que mantêm a fé

No limiar entre o túmulo e a esperança, um homem inclina-se sobre a terra e clama: “Eli, Eli, lama sabachthani?” Esse grito ecoa nos vales de Israel e na cruz em Jerusalém, atravessando gerações como uma nota sincera de abandono. A narrativa que se abre nas vozes dos salmos e na figura de Jó revela não uma falha da fé, mas um caminho onde a fé se vê testada e, ainda assim, preservada.

Ao começar, imagine a pessoa que rasga o peito com palavras que não soam como poesia, mas como agonia. Essa fala é a matéria-prima das Escrituras: lamentos que não se envergonham da dúvida, prostam-se diante de Deus e, por meio dessa honestidade, aprendem a permanecer fiéis. É esse fio que vamos seguir nas páginas do Salmo 22, do Salmo 42, do Salmo 88 e do livro de Jó.

Os salmos de lamentação surgem dentro da vida cultual e doméstica de Israel. Os títulos das composições indicam uso litúrgico: o Salmo 22 é atribuído a Davi e marcado para o diretor musical; o Salmo 42 vem dos filhos de Coré, grupos ligados ao serviço do templo; o Salmo 88 é um masquil de Hemã o Ezrahita, uma declaração de voz culta e dolorida. Esses textos circulavam nas praças, nos altares e no íntimo das casas, oferecendo linguagem para a aflição.

Geograficamente, os salmos nascem nas margens de rios, nas pedras dos vales e nas salas de oração de Jerusalém, mas ecoam também nas terras distantes de Uz, onde se desenrola o drama de Jó. O livro de Jó ocupa um espaço limítrofe fora de Israel, numa antiga tradição do Oriente Próximo que pergunta sobre a justiça divina diante do sofrimento extremo. Essa ambientação mostra que o lamento é resposta humana universal, articulada nas formas e costumes da religião israelita.

Culturalmente, a prática do lamento obedece a fórmulas conhecíveis: invocação divina, queixa, exposição da angústia, súplica por intervenção e, muitas vezes, voto de louvor. Importante notar que nem todo lamento termina em louvor; o Salmo 88 se destaca por permanecer em trevas, sem a virada reconfortante. Essa diversidade revela que a Escritura aceita tanto o clamor que é respondido quanto o clamor que permanece sem resposta clara.

O Salmo 22 inicia com a pergunta cortante: “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?” A palavra hebraica עזבתני (azabtani), vinda da raiz עזב, expressa o ato de deixar, abandonar, afastar-se. Essa raiz carrega o peso não apenas de ausência física, mas de percepção relacional: o sofrimento interpreta-se como corte do laço afetivo com Deus. Quando o salmista profere essa palavra, não nega a soberania divina; exige sentido e presença.

O eco desse vocábulo atravessou a história sagrada: o Cordeiro da Paixão o repete na cruz, ligando a experiência humana de abandono ao cumprimento messiânico. O Salmo 22, porém, não se detém no grito. A poesia movimenta-se de sombras para testemunho, proclamando, nos versículos posteriores, memórias de salvação e a futura confissão das nações. Assim, o abandono exposto transforma-se em espaço de memória e esperança.

O salmista do capítulo 42 usa a imagem do cervo que anseia por águas: “Como o cervo suspira pelas correntezas de águas, assim a minha alma suspira por ti”. O verbo תערג (ta’arog) denota um anelo profundo, uma sede vital que move o ser inteiro. Esse anseio revela que a lamentação não é apenas reclamação, mas também fome e confiança: o clamor se volta ao Deus que é fonte.

Na trajetória do texto, a repetição “Por que estás abatida, ó minha alma?” e a convocação à lembrança das peregrinações de louvor mostram prática concreta: recordar a obra de Deus como meio de resistência à desesperança. O salmista não remove a dor, mas reconstrói-a dentro da história de aliança.

Jó surge como figura que desafia explicações simples: homem íntegro, próspero e, de repente, devastado. Seus discursos combinam lamentação, acusação e desejo de audiência com Deus. Ao declarar “Ainda que ele me mate, nele esperarei” (Job 13:15), Jó conserva uma forma de fidelidade que não depende de respostas imediatas. Os amigos de Jó utilizam a teologia retributiva para explicar seu infortúnio; Jó a contesta, exigindo diálogo e justiça.

O discurso divino a partir do redemoinho (Job 38–41) não resolve a questão moral por meio de exposição teórica, mas recoloca a criatura diante do Criador, lembrando majestade, mistério e soberania. A restauração final de Jó (Job 42) aponta para um desfecho que não elimina o sofrimento vivido, mas restaura relações e testemunho.

Os textos ensinam práticas palpáveis: levar ao Senhor o próprio lamento em linguagem honesta; recitar e lembrar as obras divinas como arma contra o desespero; permanecer na comunidade mesmo quando as palavras dos amigos falham; perseverar no diálogo com Deus, como Jó, mantendo a integridade. A Escritura não sugere fuga do sofrimento, mas oferece formas de habitar nele com fé.

Essas páginas bíblicas mostram que a ausência aparente de Deus não anula a possibilidade de fé. O caminho do lamento é também caminho de fidelidade: clamar, recordar, esperar e, finalmente, testemunhar. Nesta primeira parte do estudo, encontramos no Salmo 22, no Salmo 42, no Salmo 88 e em Jó uma escola de fé que não poupa honestidade e, por isso mesmo, sustenta o aflito.

Representação bíblica
“Representação bíblica”

A Escritura nos oferece rotações práticas para viver o lamento sem renegar a fé. Primeiro passo: nomear o lamento e levá-lo a Deus em palavras concretas. Diga ainda hoje: “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?” (Salmo 22:1) e deixe que a voz queixa-se na presença do Senhor.

Em segundo lugar, habitue-se a recordar as obras divinas como resistência à amargura. Recitar salmos e narrativas de salvação é prática bíblica: o salmista que pergunta “Por que estás abatida, ó minha alma?” (Salmo 42:5,11) convoca-se a lembrar a fidelidade passada para sustentar a esperança presente.

Terceiro passo: permanecer na comunidade. Jó sofreu em isolamento e, ao final, a restauração envolve reparação relacional. Reunir-se com irmãos, permitir que líderes e amigos ouçam o lamento, é obedecer à Escritura que exorta à mutualidade nos sofrimentos.

Quarto passo: disciplina litúrgica do lamento. Estruture momentos de oração, leitura bíblica e jejum como disciplina de presença. Esses gestos corporais não anulam a dor, mas a inserem numa história maior. A prática explícita ajuda a tirar o lamento do labirinto solitário.

Quinto passo: recusar explicações simplistas. Tanto os salmos quanto Jó mostram que respostas prontas podem ferir. Segure-se na tensão teológica: proclame a soberania de Deus enquanto denuncia a dor. Essa fidelidade não exige compreensão instantânea, exige verdade.

Sexto passo: procurar ajuda profissional quando a depressão ou o isolamento ultrapassam a capacidade de cuidado da comunidade. A Escritura não proíbe o auxílio médico; ela orienta a buscar sabedoria e socorro em irmandade fiel.

Práticas concretas, organizadas:

  • Fazer diário de lamentação: escreva queixas, perguntas e memórias de graça.
  • Memorizar e recitar salmos de lamento e de esperança, especialmente Salmo 22 e Salmo 42.
  • Estabelecer encontros semanais de oração com um pequeno grupo ou mentor.
  • Buscar aconselhamento pastoral fundamentado nas Escrituras e, se necessário, apoio clínico.
  • Usar a liturgia da igreja para nomear perdas em cultos, funerais e memoriais.

Para quem acompanha processos de discipulado, recursos práticos ajudam a orientar a caminhada. Consulte materiais formativos sobre cartas e práticas de discipulado em https://ensinodabiblia.com.br/cartas-de-paulo-guia-pratico-para-discipulado/ e visite https://ensinodabiblia.com.br/ para mais artigos e guias que conectam exegese com cuidado pastoral.

Cada passo é enraizado na Escritura: lamentar não é ausência de fé, é fé em forma de pergunta e perseverança.

Ao fechar esta etapa do estudo, permanecemos na mesma paisagem onde o salmista e Jó gritaram: a noite do abandono e a terra da dor. A Escritura nos permite viver lá sem fingir respostas fáceis. A fidelidade cristã passa pela honestidade do lamento e pela persistência na audiência divina.

Que a sua resposta imediata seja a oração. Uma oração breve para guiar o coração:

Senhor, eu trago minha dor; ouve minha queixa. Não sufoques minha honestidade. Ensina-me a lembrar-te e a esperar em Ti.

Renda-se ao processo de cura que a Escritura propõe: clamar, lembrar, permanecer em comunidade, buscar sabedoria e manter a integridade. Se houver necessidade de arrependimento, que ele venha acompanhado de confissão e restauração; se houver necessidade de ação teológica, que resulte em serviço e testemunho. Que a sua vida de fé seja marcada por coragem para lamentar e por fidelidade para testemunhar a bondade de Deus quando a noite passar.

Permaneça orando, procure companhia fiel, e permita que as palavras dos salmos e de Jó moldem sua paciência e sua esperança. Espera em Deus; pois ainda o louvarei (Salmo 42:11).

Para estudo e aprofundamento, recomendo leitura complementar e comentários que dialogam com os textos aqui tratados. Também indico materiais práticos para discipulado e cuidado pastoral.

  • Recursos práticos no site Ensino da Bíblia: https://ensinodabiblia.com.br/cartas-de-paulo-guia-pratico-para-discipulado/
  • Portal com artigos e guias: https://ensinodabiblia.com.br/
  • Matthew Henry, Commentary on the Whole Bible, comentário clássico que explora os salmos e os livros poéticos com sensibilidade pastoral.
  • D. A. Carson (org.), Comentário Vida Nova, volumes selecionados sobre salmos e sofrimento, leitura erudita e pastoral.
  • Obras da Editora Paulus sobre salmos e espiritualidade bíblica, úteis para liturgia e acompanhamento pastoral.

Bibliografia e leitura adicional (seleção):

  • Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible. (edições tradicionais).
  • Carson, D. A. (org.). Comentário Vida Nova (volumes selecionados sobre Sabedoria e Poéticos).
  • Paulus (org.). Coleção sobre Salmos e Liturgia. Editora Paulus.


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