Um homem da Galileia fala à beira de um lago. Seus ouvintes são pescadores, camponeses e mulheres que sabem o preço de uma colheita perdida. Entre os que o cercam vivem dúvidas sobre pão, roupa e futuro; uma inquietação prática que corta o sono.
A voz do Mestre não cai do céu como sentença acadêmica, mas como conversa de quem conhece a alma humana. Quando Ele diz para não nos preocuparmos, não está apenas propondo um conselho vago; está oferecendo uma prática de fé, forjada numa narrativa que atravessa as Escrituras.
O trecho de Mateus 6:25–34 integra o Sermão da Montanha, pregado em contexto palestino, entre colinas e aldeias que viviam do campo e do comércio local. A audiência de Jesus era majoritariamente judia, marcada pela lei, pelas expectativas do Messias e pelas pressões econômicas da ocupação romana.
Na cultura agrária do primeiro século, a subsistência dependia do clima, das estações e de redes familiares. Preocupação por alimento e vestuário era uma preocupação existencial. Por isso as imagens de aves do céu e lírios do campo, em Mateus 6, falam diretamente ao cotidiano de quem lavra a terra.
Filipenses 4:6–7 brota de outra cena: Paulo escreve na prisão, dirigindo-se a uma comunidade que sofre tensões internas e hostilidade externa. Sua exortação contra a ansiedade nasce de uma experiência pastoral e pessoal; ele conhece a angústia, mas aponta uma resposta cristã comunitária que inclui oração e ação confiante.
As trajetórias de Jó e Davi oferecem contextos exemplares. Jó é a saga da perda total e do questionamento religioso diante do sofrimento. Davi, em seus salmos, alterna entre angústia, arrependimento e confiança. Ambos constituintes bíblicos mostram que a luta contra a ansiedade não é ausência de dor, mas caminho de fé.
A palavra que ilumina: μεριμνάω (merimnáō)
No grego do Novo Testamento, a expressão central em Mateus 6:25 e em Filipenses 4:6 é μεριμνάω, traduzível por “angustiar-se” ou “preocupar-se”. O verbo descreve uma mente dividida, ocupada em cuidar demais de algo a ponto de dispersar a confiança. Jesus e Paulo usam o termo para nomear um estado interior que rouba a atenção de Deus.
μεριμνάω não é apenas cautela prática; é uma energia que consome o coração e diminui a capacidade de buscar o Reino. Compreender a raiz do termo ajuda a ver que a cura não é meramente técnica, mas transformacional: mudar o objeto da atenção.
Mateus 6:25–34 — Exegese prática
Jesus começa com uma afirmação direta: “Não andeis inquietos quanto à vossa vida…” (Mt 6:25). Ele recorre a dois testemunhos da criação — aves e lírios — para argumentar por analogia: se Deus sustenta o que é passageiro, quanto mais o ser humano, criado à sua imagem.
O centro do argumento é a prioridade do Reino: “Buscai primeiro o Reino de Deus” (Mt 6:33). O verbo ζητεῖτε (zēteite) implica busca contínua, uma prática de confiança que reorganiza o agir humano. Não se promete eliminação de problemas, mas reorientação da motivação. A fé não anula o cuidado; redefine-o.
Filipenses 4:6–7 — O modo da paz
Paulo escreve: “Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes, em tudo, pela oração e súplica com ação de graças, sejam conhecidas as vossas petições” (Filipenses 4:6). A fórmula é tríplice: oração, súplica e ação de graças. A gratidão aparece como antídoto que transforma a perspectiva.
O “coração que excede todo entendimento” (πέραν πάσης διάνοιας) é a paz de Deus que guarda. Guardar (φρουρεῖ) sugere proteção aplicada ao interior. A paz não é mero sentimento, mas presença guardiã que resulta de comunicar a Deus as ansiedades em oração.
Jó e Davi — Exemplos bíblicos de fé em meio à angústia
Jó experimenta o pior da perda e do silêncio divino, mas seu diálogo com Deus e sua perseverança terminam em restauração (Jó 42:10–17). A trajetória de Jó mostra que fé e questionamento coabitam; a cura é progressiva e passa pela honestidade diante de Deus.
Davi, nos salmos, modela como transformar angústia em clamor e louvor. No Salmo 23 ele confessa confiança: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum” (Sl 23:4). Em salmos de lamentação, ele traz suas inquietações ao Senhor e recebe reafirmação de proteção. Assim a prática bíblica consiste em levar a ansiedade ao trono, clamando e esperando.
Aplicação imediata
A Escritura convida a um exercício diário: identificar as merimnáes, nomeá-las em oração, oferecer ações de graças e buscar os caminhos do Reino. Isso não promete um coração perfeitamente quieto, mas promete um caminhar onde a atenção é curada e a prática de fé se torna resistência contra a ansiedade.
Para recursos de estudo que ajudam a aprofundar termos originais e ferramentas exegéticas, veja Pesquisa de termos bíblicos e a página principal do nosso projeto em Ensino da Bíblia.

A Palavra precisa virar gesto. Comece nomeando as inquietações que pesam sobre o peito e leve-as, com palavras concretas, ao Senhor em oração. Isto é prática cristã, não técnica psicológica.
Cultive a rotina triádica de Paulo: oração, súplica e ação de graças. Faça uma lista de orações diárias onde cada pedido venha acompanhado de pelo menos uma razão de gratidão (Filipenses 4:6).
Implemente disciplina bíblica para o coração. Reserve tempo diário para leitura e memorização de passagens chave, como Mateus 6:25–34 e Filipenses 4:6–7. Use ferramentas de estudo para aprofundar o sentido das palavras originais; veja sugestões práticas em https://ensinodabiblia.com.br/pesquisa-de-termos-biblicos-transforme-buscas-em-conteudo/ e recurso geral em https://ensinodabiblia.com.br/.
Pratique estes passos simples e repetíveis
- Nomear a ansiedade e registrá-la num caderno de oração
- Apresentar cada item a Deus em oração e súplica com ação de graças
- Memorizar uma linha do texto bíblico que responda à ansiedade
- Partilhar uma luta com um irmão ou irmã confiável para oração e acompanhamento
- Estabelecer horários limitados para consumo de notícias e redes sociais
- Dedicar um dia ou parte do dia ao descanso e à meditação das Escrituras
Viva a busca do Reino no trabalho, no lar e nas finanças. Quando Paulo fala de oração que traz paz, ele liga fé e praxis. Permita que escolhas cotidianas (como dar, trabalhar com fidelidade e descanso sabático) moldem sua confiança em Deus (Mateus 6:33).
Inspire-se em Jó e Davi para transformar lamento em liturgia. Registre seu clamor e, em seguida, escreva respostas de louvor quando perceber cuidado divino. Esse exercício cria memória espiritual que corrói a ansiedade.
Quando a carga for excessiva, procure aconselhamento pastoral e, se necessário, ajuda profissional. A fé bíblica honra o corpo e a mente como bens do Criador e reconhece limites humanos.
A Escritura nos chama a uma prática de fé que é ao mesmo tempo humilde e corajosa. Não se trata de evitar sentir medo, mas de aprender a levar esse medo ao trono da graça.
Volte aos textos: leia Mateus 6:25–34 como treino de visão; medite em Filipenses 4:6–7 como treino de oração. Permita que o Senhor construa em você uma paz que guarda o coração e a mente.
Faça agora uma pequena oração de entrega. Nomeie uma ansiedade, agradeça algo concreto e peça a paz que excede todo entendimento. Que esta repetição forme em você um ritmo de confiança, arrependimento prático e ação fiel.
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Referências teológicas selecionadas
- D. A. Carson, Comentário Vida Nova sobre o Sermão da Montanha e os Evangelhos (análises sobre Mateus)
- Matthew Henry, Comentário Bíblico Completo (notas devocionais e exegéticas)
- Obras da Editora Paulus sobre salmos e aconselhamento pastoral (estudos temáticos e litúrgicos)
- D. A. Carson — Comentário Vida Nova (referência acadêmica para exegese de Mateus)
- Matthew Henry — Comentário Bíblico Completo (referência devocional e exegética)
- Editora Paulus — Estudos sobre salmos e aconselhamento pastoral

