Ensino da Bíblia

Havia uma mulher que guardava a palavra sinete sobre o peito do marido morto. Ao dobrar o lençol, a voz do salmo vinha como lembrança: o Senhor é meu pastor. Noutras noites, um marinheiro repetia, entre tosses e medo, a oração que Jonas fez dentro do ventre. E havia ainda a irmã que, ao ver Jesus, ouviu no silêncio a promessa de que a morte não teria a última palavra.

Essas pequenas cenas formam um cordel de memórias bíblicas: o salmo que guia, o profeta que clama do abismo, o Senhor que chama do silêncio. São geografias de dor e de promessa onde a fé é testada e temperada.

Este estudo abre uma trilha prática: não para aliviar a dor por atalhos, mas para aprender a permanecer crente quando o pranto pesa. Partimos das Escrituras, passo a passo, para olhos que precisam ver e ouvidos que precisam escutar.

O Salmo 23 nasce na cultura pastoril de Israel. A imagem do pastor remete a pastagens, veredas e mesas preparadas diante de inimigos (Sl 23:1-5). David, pastor e rei, fala de provisão e presença em terras que conhecem tanto o riacho quanto a emboscada.

Jonas 2 é a oração de um profeta dentro do ventre do peixe. O texto ocorre entre tempestade e entrega, quando o hóspede forçado enfrenta o Sheol (שְׁאוֹל) e reconhece a fidelidade de Deus (Jon 2:1-10). O cenário é marítimo e teológico: a jornada do chamado, a resistência humana e a graça que corrige.

João 11 situa-se em Betânia, junto a Lázaro, Marta e Maria. O luto judaico do primeiro século incluía pranto público e rituais; Jesus, ao chegar retardado, transforma a espera em sinal: chora (Jo 11:35) e depois ordena a saída do morto (Jo 11:43-44). A ressurreição de Lázaro é palco de conflito entre vida promessa e poder estabelecido.

Senhor como Pastor: ro’i (רֹעִי)

No hebraico do Salmo 23:1, ‘יְהוָה רֹעִי‘ declara posse e cuidado: Yahweh é ro’i, meu pastor. A raiz רָעָה indica apascentar, conduzir, proteger. O pastor bíblico não é apenas fornecedor; ele guia para pastos seguros e restaura a alma (Sl 23:2-3).

Ler ro’i em contexto revela uma teologia de presença: a fé no luto não começa por explicar a perda, mas por reconhecer um Pastor que permanece ao lado. A linguagem pastoral promete provisão concreta — água, caminhos retos — mesmo quando a trilha passa pelo vale da sombra (Sl 23:4).

O grito do abismo: Sheol (שְׁאוֹל) em Jonas 2

Jonas afirma: ‘das entranhas do Sheol clamei’ (Jon 2:2). Sheol, no pensamento hebraico, é o lugar dos mortos, a sepultura, símbolo do abandono. Não é só um local geográfico; é a experiência de separação que a morte provoca.

A oração de Jonas traça uma curva: do afundamento ao reconhecimento de que a salvação vem do Senhor. Em Sheol, a confissão nasce: ‘quando o meu Deus se lembra de mim’ (Jon 2:7). Assim a Escritura mostra que mesmo do fundo mais escuro pode subir um cântico de confiança.

Do silêncio à voz: o chamado em João 11

Em João 11, o atraso de Jesus intensifica a dor, mas prepara um sinal maior. Jesus chora (Jo 11:35) mostrando compaixão encarnada. Depois, em voz alta, ordena: ‘Lázaro, vem para fora’ (Jo 11:43). O verbo do chamado rompe o silêncio da sepultura e reconfigura a realidade.

Este gesto indica que em face da morte a prática pastoral precisa unir compaixão e palavra de vida. O chamado não minimiza o luto; ele revela que a autoridade de Cristo confronta a última palavra da morte.

Representação bíblica
“Representação bíblica”

A fé no luto pede caminhos concretos onde a palavra encontre o corpo ferido. Partimos das cenas bíblicas: a atenção do Pastor, o brado que sobe do abismo e o chamado que vence o sepulcro. Cada prática abaixo gera cobertura pastoral e disciplina espiritual para dias de sombra.

  • Nomear a dor — comece com a linguagem bíblica do lamento. Leia em voz alta Salmo 23:1-4 e permita que o pranto seja uma oração. Dê ao sofrimento um nome, contando a história da perda diante de Deus.
  • Orar a oração de Jonas — repita a curva de Jonas 2:2,7 em oração confessional: reclamar, reconhecer, agradecer. Use frases curtas para clamar do abismo e proclamar que a salvação vem do Senhor.
  • Lectio Divina com o Salmo 23 — quatro tempos: leitura, meditação, oração e contemplação. Focalize em palavras-chave como ro’i e restaura. Anote impressões e promessas para memórias espirituais futuras.
  • Permitir o choro comunitário — reúna irmãos para presença encarnada. Como em João 11, a compaixão é verbo: venha, sente, chore e fique. Organize visitas, cultos de memória e pequeno grupo de acompanhamento.
  • Palavra que chama — ensine a congregação a pronunciar palavras de vida, seguindo o exemplo de Jesus que ordenou ‘Lázaro, vem para fora’ (João 11:43). A palavra pastoral deve ser clara, empática e autoritativa.
  • Sacramentos e ritmos — reintegre o enlutado nos sinais da igreja. Ceia, oração ungida e bênção pastoral restauram corpo e alma. Combine práticas espirituais com cuidados físicos simples: sono regular, alimentação e consulta médica quando necessário.
  • Memória como ministério — crie rituais para recordar o falecido: leitura de textos bíblicos, montagem de álbuns e tempo de testemunho. A memória cristã transforma perda em testemunho de esperança.
  • Apoio profissional e discipulado — encoraje acompanhamento pastoral e, quando preciso, acompanhamento psicológico. Para formação espiritual contínua, ver recursos de discipulado prático em https://ensinodabiblia.com.br/cartas-de-paulo-guia-pratico-para-discipulado/ e materiais no https://ensinodabiblia.com.br/.

Cada passo deve ser adaptado à pessoa e ao contexto. Evite respostas prontas; prefira presença constante, leituras bíblicas guiadas e pequenas disciplinas que recriem confiança em Deus dia após dia.

A Escritura não promete imunidade contra a dor, mas revela um Pastor que caminha conosco, um profeta que clamou do fundo e um Senhor que chama ao novo viver. Em rosto humano, Cristo chorou e, em voz poderosa, venceu o silêncio do túmulo.

Ore agora com estas linhas simples: ‘Senhor Pastor, tu és meu guia; no vale eu confio em ti. Lembra-te de mim no meu abatimento; vem e chama-me de volta à vida.’ Entregue a tristeza ao Pastor, confesse o coração endurecido, e comprometa-se a plantar práticas espirituais que sustentem a fé.

Ministério prático exige coragem teológica: congregações devem aprender a acompanhar, não a apressar. Pastores e irmãos, voltem-se para o cuidado paciente e para a proclamação fiel da ressurreição. Que a igreja seja lugar onde a dor encontra palavra, abraço e promessa.

Referências eruditas:

  • D. A. Carson, Comentário Vida Nova sobre o Evangelho de João — leitura indispensável para compreender a teologia do choro e do chamado em João 11.
  • Matthew Henry, Commentary on the Whole Bible — exposições clássicas sobre Salmos e os profetas, úteis para a prática devocional no luto.

Para estudo pastoral complementar, recomendo unir a leitura destes comentários com práticas locais de discipulado e acompanhamento pastoral. Que a erudição ilumine a compaixão e a palavra da igreja.


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